CONHECIMENTO É PODER?
CONHECIMENTO É PODER?
Depois de ler O PRÍNCIPE, de
Nicolau Maquiavel (1469-1527) – obra escrita em 1513 e publicada em 1532 – e
que desde então causa discussões, controvérsias, amor ou ódio, é pura ousadia,
para não dizer atrevimento, escrever sobre o poder. Esta obra está traduzida em
quase todas as línguas conhecidas e certamente foi lida pela maioria dos
políticos antigos e modernos, obviamente aqueles que gostam e sabem ler.
Maquiavel, numa interpretação, “sugere que se você calcular corretamente constatará
que a liderança eficaz conta mais pontos em termos morais do que uma liderança
virtuosa” (Garvey e Stangroom, Octavo, 2013).
Ainda baseado nos mesmos autores,
“Parte da originalidade da abordagem de Maquiavel foi a insistência em que as
idéias políticas tinham de se enraizar numa compreensão adequada do que
realmente se passa no mundo”.
Nem tanta novidade, porque no
século V Atenas começa a expandir seu poderio e obter muitos recursos para uma
vida tão confortável que com a abundância do trabalho escravo puderem dedicar
muito tempo a pensar na política e na filosofia. Filósofos começaram a intervir
na política e políticos começaram a empregar argumentos filosóficos para
embasar suas decisões e frequentemente políticas equivocadas. Então aparece Platão
(427-347 a.C.), o primeiro tecnocrata, que acreditava que a ‘verdade’ deveria
estar sob os cuidados de especialistas, porque a vasta maioria dos humanos era
vil e idiota demais para apreciá-la.
Mas tem também Francis Bacon
(1561-1626) cuja obra filosófica enfatiza a ciência a serviço do homem. O
conhecimento científico deveria servir o homem e dar-lhe poder absoluto sobre a
natureza, estabelecendo o império do homem sobre as coisas. Absolutamente
pragmático. O conhecimento não só dava poder sobre a natureza, mas aproximava
do divino, para além das coisas humanas.
“Saber é poder”, o conhecimento é o meio para se conquistar e dominar. Isso
soa extrementamente contemporâneo. Um autor sofisticado, mais citado do que
lido.
Essa introdução se faz pertinente porque hoje
confundimos títulos com conhecimento. Há legislação e normas acadêmicas
regulando o assunto. As escolas são avaliadas, entre outras coisas, pelos
titulados que empregam. As agências de fomento de pesquisa são criteriosas
quanto aos títulos dos solicitantes de financiamento para seus projetos de
pesquisa, bem aqui, com alguma razão, mas não como regra. Assim procedendo,
grandes nomes da humanidade jamais conseguiriam financiamento para seus
projetos e talvez nem emprego como professores porque não tinham títulos
acadêmicos: Leonardo da Vinci (1452-1519); René Descartes (1596-1650). Só para
citar dois. Alguém duvida que sabiam o que estavam fazendo?
No país temos uma forte tradição
nos bacharelados, aquela formação que titula o concluinte como ‘bacharel’ da
maioria dos cursos de graduação, como por exemplo: Administração,
Contabilidade, Direito, Economia, Medicina, e outros. Ainda temos a
licenciatura, que confere ao profissional o título de ‘licenciado’, é aquele que tem o
objetivo de ensinar, trabalhar como professor. Temos o ‘mestre’, título
acadêmico conferido aquele que cursou e defendeu um mestrado e que com sua
grande especialização é habilitado a dar aulas, especialmente num curso de
graduação. O grau de ‘doutor’ é o mais elevado grau acadêmico dos sistemas de
ensino e comprova uma capacidade de pesquisar e investigar.
Se temos as hierarquias de formação e
atribuição assim bem estabelecidas, porque um grande número de nossas escolas, de
todos os níveis, em avaliações internas e externas, não consegue alcançar os
indicadores de qualidade dela esperados?
Parece que a resposta é mais simples, não
necessitando de grandes digressões: os títulos que qualificam, teoricamente até
atestam a dedicação e o interesse num
tema nesse título especificado, mas a paixão pelas pessoas, pelo processo de
ensino aprendizagem, pelo ambiente educacional tem que estar no espírito, que
não se dependura numa parede nem consta do currículo.
Faz uma combinação alquímica, não
propriamente química, entre didática que pode ser traduzida por arte ou
técnica, o jeito de e para ensinar e a alma do indivíduo que nesse fazer
professa e evidencia a sua fé.
O que chamamos de Didática Moderna, tem sua
criação na prática de Jean Amós Comenius (1592-1670), delineada no século XVII,
na obra Didática Magna publicada em 1657, onde no cap. XVI, Requisitos gerais
para ensinar e aprender: como se deve ensinar e aprender com a certeza de
atingir o objetivo, item 3. “Quem não sabe, porém, que para semear e plantar é
preciso ter alguma arte e habilidade? De fato, a maior parte das plantes
cuidadas por jardineiros inexperientes costuma perecer, e se alguma cresce
viçosa é mais por acaso que por arte. Quem, porém, trabalha com destreza e
paixão, sabendo o que, onde, quando e como é necessário fazer e deixar de
fazer, não terá desenganos. No entanto, é verdade que às vezes até os mais
experientes não obtêm resultados (pois para o homem é quase impossível realizar
tudo com tal precisão que não lhe escape algum erro de um modo ou de outro),
mas aqui não nos ocupamos da perícia ou do acaso, porém da arte, ou seja, do
modo como é possível prevenir os acidentes”.
Sugestão: gestores envolvidos com a atração,
seleção e contratação de professores, no processo de entrevista, para além da
leitura do currículo e aulas experimentais (testes), acrescentem algumas
questões, cujas respostas de alguma forma transmitam o que vem no espírito
desses profissionais.
Luiz Carlos Moreno é Pedagogo, Especialista em
Educação, Filosofia e Recursos Humanos. Presidente
da ARE – Academia Ribeirão-Pretana de Educação (2010-2014). Professor e
coordenador universitário. Consultor em Desenvolvimento Humano.
Artigo publicado na revista
GESTÃO EDUCACIONAL, nº 108 –
ano 9, maio, 2014; p.42-43
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