A IDADE EM QUE O TEMPO SENTA À MESA (autor apócrifo)

 A Idade em Que o Tempo Senta à Mesa


Existe uma fase da vida em que o espelho começa a nos tratar com uma sinceridade quase ofensiva.


Os cabelos debandam discretamente. Os joelhos passam a emitir boletins sonoros. A memória, às vezes, resolve brincar de esconde-esconde justamente com o nome daquela pessoa que acabamos de encontrar no supermercado.


E há também o fenômeno mais cruel de todos: levantar da cadeira emitindo um “opa!” involuntário… como se a coluna precisasse de autorização verbal para funcionar.


Mas talvez exista uma beleza secreta nisso tudo.


Porque, enquanto o corpo vai lentamente negociando limites com o tempo, a alma — curiosamente — começa a ficar maior.


Mais generosa. Mais paciente. Mais humana.


Chega uma idade em que já não precisamos vencer discussões inúteis. Nem provar inteligência. Nem disputar importância. A vida finalmente nos ensina que certos troféus pesam mais do que valem.


Então começamos a trocar pressa por presença.


E isso muda tudo.


O café deixa de ser apenas café. Vira cerimônia. Vira encontro. Vira desculpa para conversar sem relógio.


As amizades antigas ganham um brilho raro.


 Porque sobreviveram às décadas, aos desencontros, às mudanças, às perdas, às teimosias e até às opiniões políticas — milagre estatisticamente improvável para homens acima dos setenta… especialmente em grupos de WhatsApp.


E o amor… Ah, o amor também muda.


Já não precisa incendiar o mundo. Basta aquecer o coração.


Às vezes ele chega na forma de uma mensagem simples: “Você está bem?”


 E pronto. Aquilo ilumina o dia inteiro.


Descobrimos também que aventura, na maturidade, ganhou novos significados.


 Dormir a noite inteira sem acordar duas vezes para ir ao banheiro virou quase uma experiência transcendental. Encontrar um exame médico com todos os índices normais provoca emoção semelhante à conquista de uma Copa do Mundo. E viajar sem esquecer os remédios já pode ser considerado um ato de ousadia internacional.


Mas existe algo profundamente épico em continuar vivendo com ternura apesar de tudo.


Apesar das ausências.


 Apesar das despedidas.


 Apesar dos amigos que partiram cedo demais e deixaram cadeiras vazias em nossas mesas e silêncios difíceis de explicar.


Ainda assim… continuamos marcando encontros.


 Planejando viagens. Rindo das mesmas histórias.


 Inventando motivos para celebrar aniversários.


 Plantando ipês brancos em algum canto da memória.


Talvez seja isso que sustenta o mundo sem que a gente perceba: homens e mulheres comuns insistindo delicadamente em continuar amando a vida.


Porque envelhecer não é desaparecer.


É diminuir o barulho externo para escutar melhor o essencial.


É descobrir que felicidade talvez nunca tenha sido uma linha de chegada. Era apenas aquela conversa boa depois do almoço… o telefonema inesperado… o abraço demorado… o amigo que ainda lembra do seu apelido de juventude… e a mesa onde alguém sempre guarda um lugar para você.


No fim das contas, talvez a grande vitória da maturidade seja esta:

aprender que a vida não precisa mais correr.


Agora ela pode apenas… sentar conosco à mesa.

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