1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar - ROBERT ARP

 

ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. 


Educação compulsória

Platão

Sistema de educação que começa no nascimento e identifica os futuros líderes de uma sociedade


A noção de educação compulsória se refere a um perío­do de ensino obrigatório por lei ou por alguma autoridade comparável. Um dos esforços mais antigos para codificar requisitos da educação consta no Talmude, o compêndio da lei judaica. 0 Talmude recomenda uma forma de edu­cação privada no lar que enfatiza questões religiosas além de treinamento em qualquer que seja a vocação familiar.

Platão (424-348 a.C.) foi um dos primeiros pensadores a elaborar a arquitetura de um sistema completo de edu­cação pública. Em A República (360 a.C.), ele descreve um sistema de ensino projetado para afetar a estratificação social, que, de acordo com o filósofo, é um pré-requisito para que a justiça prevaleça em um Estado. O sistema de ensino de sua República tem início no nascimento, quando as crianças são removidas da família e criadas por um cole­tivo. Educadores são encarregados de monitorar as crian­ças de forma a identificar qualidades de liderança, para que aqueles com "ouro em suas almas" (Platão usa esse metal precioso como uma metáfora para o potencial de lideran­ça) possam receber o treino adequado para assumir altos cargos no Estado, sendo o mais alto o cargo de rei filósofo.

Em Leis (360 a.C.), uma obra posterior, Platão apresenta um sistema de educação mais moderado, um pouco mais parecido com os sistemas contemporâneos. As crianças não são removidas de suas famílias, e não há reis filóso­fos. Mas a estratificação social adequada permanece como objetivo. A educação formal começa aos seis anos, quan­do o currículo foca alfabetização e aritmética. Aos treze anos a música é introduzida, e aos dezoito o jovem come­ça o serviço militar. Aos vinte e um anos os estudantes que demonstrem as aptidões necessárias são selecionados para estudos avançados que levam aos cargos mais altos do Estado. Sistemas educacionais surpreendentemente similares a esse antigo modelo são a norma atual em todos os países desenvolvidos. DM

"Eu ensinaria às crianças música, física e filosofia; mas música é o mais importante, pois os padrões na música e em todas as artes são a chave para o aprendizado.”

Platão, A República (360 a.C.)

Fonte:

ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. P.191


O rei filósofo

Platão

 

Ideia de que o governante de uma nação deveria ser um filósofo instruído

 

Em seu diálogo socrático /4 República, escrito em 360 a.C., Platão (424-348 a.C.) apresenta sua teoria sobre a lideran­ça ideal. Ele argumenta que, no melhor mundo possível - no qual a humanidade pode formar um Estado que busca ideais utópicos de justiça, conhecimento e verdade -, uma nação só pode ser liderada por certo tipo de pessoa. Esse governante, chamado de "rei filósofo", deve ter como prin­cipal preocupação a busca da sabedoria, obtida por meio da filosofia.

Em A República, Platão descreve um estado ideal cha­mado Kailipolis, governado por guardiões sábios ou reis filósofos. Para Platão, o filósofo é uma pessoa que busca a verdade e mantém um afastamento de fatores irrelevan­tes para essa busca. Um rei filósofo foca apenas aquilo que é realmente importante. Isso significa que um líder deve desenvolver uma compreensão de verdades fundamen­tais, ou formas, e não se sujeitar aos caprichos da opinião popular. Assim como o capitão de uma embarcação que tem conhecimento de navegação astronômica não deve prestar atenção ao escárnio dos navegadores que não pos­suem tal conhecimento, também o rei filósofo mantém a busca pela justiça e sabedoria enquanto navega a embar­cação do Estado.

A República, com suas Ideias de uma sociedade utópica e governantes ideais, foi uma das obras sobre teoria polí­tica e justiça mais influentes no mundo ocidental. A ideia de um rei filósofo moldou a forma pela qual as pessoas pensam na liderança política e no papel do governo, e em como líderes ideais devem agir, pensar e governar. Alguns críticos, no entanto, como o filósofo britânico Karl Popper (1902-94), condenaram a ideia de governantes que têm a permissão de ignorar as opiniões e os desejos do povo. O conceito do rei filósofo não traz nenhuma garantia contra indivíduos tirânicos que impõem os próprios ideais de lide­rança e, portanto, o conceito é antiético como base para uma sociedade aberta.


ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. pag. 187. 



EFEITO ESTUFA - Joseph Fourier (1768-1830) - Teoria de que a atmosfera retém a radiação infravermelha oriunda da Terra.

A descoberta do “efeito estufa” é atribuída ao físico francês Joseph Fourier. Seu primeiro artigo foi publicado em 1824. Citando as pesquisas de seu colega físico Horace-Bénédict de Saussure (1740-1799) com “caixas quentes” –,  microestufas cobertas com placas de vidro transparente para reter o calor do sol – Fourier concluiu que os gases atmosféricos poderiam reter o calor de modo similar aos painéis de vidro – uma comparação sugestiva da expressão “efeito estufa”.

A vida na Terra depende da manutenção, na superfície do planeta, de uma temperatura media confortavelmente situada entre os pontos de ebulição e de congelamento da água. O planeta é aquecido pela absorção da solar, expelida na forma de radiação infravermelha. Todos os lugares do planeta teriam temperaturas noturnas abaixo de zero se os gases da atmosfera não formassem uma capa isolante que absorve o calor expelido e o remete de volta à superfície. É o efeito estufa que mantém a temperatura da Terra em níveis apropriados.

A descoberta de quais gaes da atmosfera são responsáveis por tal processo foi feita pelo físico irlandês John Tyndall (1820-1893), em 1859. Tyndal descobriu que o dióxido de carbono e a água são fortes absorventes de energia radiante (ao contrário dos principais gases atmosféricos, o nitrogênio e o oxigênio) e que mesmo em quantidades relativamente pequenas eles são responsáveis pelo calor retido na atmosfera. Daí a sua crença de que mudanças nos componentes da atmosfera poderia resultar em mudanças no clima da Terra.

Hoje a teoria de Tyndall está no centro de um acirrado debate. Muitos cientistas acreditam que a atividade humana desde a Revolução Industrial (1760-1840) expandiu a formação de “gases do efeito estufa”, levando não só ao aumento das temperaturas médias,  como também a mudanças climáticas que poderão ter graves consequências para a vida na Terra.

 

“O aquecimento recente coincide com o rápido aumento dos gases do efeito estufa produzidos pelo homem. O rápido aquecimento observado torna urgentes as discussões sobre como reduzir as emissões desses gases.”

James Hansen, professor de ciências da Terra e do meio ambiente.

 Fonte:

ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. Pág. 465


Hipótese de Gaia

James Lovelock, 1972

 

A nova visão da Terra e de como as condições para a vida se sustentam.

 

“O sistema da Terra comporta-se como um sistema único, auto-regulador com componentes físicos, químicos, biológicos e humanos”.

Declaração de Amsterdam da União Humanista e Ética Internacional (2001)

 

 

Costuma-se supor que a Terra é um objeto sólido onde a vida floresce. Mas e se a própria Terra estiver viva, for um organismo à parte? Tal insight ocorreu a James Lovelock (n. 1919), um cientista britânico independente, quando examinava a vida um pouco mais longe.

Em setembro de 1965, Lovelock estava trabalhando no Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia, em métodos para detectar vida em Marte, quando subitamente percebeu que não era necessário visitar o planeta para achar a resposta. Como a vida na Terra é responsável por sua atmosfera, investigar a atmosfera de Marte – ou a falta dela – por um telescópio infravermelho responderia se existia mesmo vida no Planeta Vermelho. Dessa compreensão emergiu a idéia da Terra como um “planeta vivo” e, em 1972, a hipótese de Lovelock de que a Terra é um organismo único e auto-regulador capaz de sustentar a vida. A hipótese- cujo nome, Gaia, vem da personificação grega antiga da Terra (por sugestão do então vizinho de Lovelock, o romancista William Golding) – propõe que a Terra é controlada por sua comunidade de organismos vivos, interagentes, num sistema auto-regulador. Ela cuida de si pela evolução de sua biosfera, atmosfera, hidrosfera e pedosfera *. Esse sistema regula a salinidade dos oceanos e o oxigênio da atmosfera. Alcança um ambiente ótimo para a vida e é modificado por ela. O que não significa que Gaia necessariamente cuidará da vida humana e a sustentará. Pelo contrário, “Gaia cuidará de si mesma. E a melhor forma de fazê-lo talvez seja livrar-se de nós”, Lovelock alertou em 1987.

Dessa hipótese deriva toda uma filosofia da Terra como um planeta vivo, com implicações profundas para o ambiente e o futuro da própria vida. As plenas implicações dessa hipótese revolucionária estão por ser exploradas.

Fonte:

ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. Pág. 840


(*) Pedosfera = camada mas externa da Terra, solos.

1895

Horário de verão

George Vernon Hudson

Criação de mais horas diurnas

 

0 entomologista e astrônomo anglo-neozelandês George Vernon Hudson (1867-1946) começou a colecionar insetos aos 9 anos. Ainda em Wellington, Nova Zelândia, arranjou um emprego de trabalhador por turnos. Nas horas vagas, dedicava-se à coleção. Havia, porém, um problema: Hudson achava que as horas diurnas não eram suficientes para urna busca adequada de seus queridos insetos. Algo precisava ser feito. Em outubro de 1895, ele submeteu à Sociedade Filosófica de Wellington um artigo sugerindo que talvez fosse razoável proceder-se a um ajuste sazo­nal do horário.

Hudson propôs mudar os relógios nos equinócios, duas horas para a frente em outubro, duas horas para trás em março. Embora a ideia já tivesse sido antecipada pelo inventor americano Benjamin Franklin (1706-1790), que a apresentou no ensaio "Um projeto econômico para reduzir o custo da energia elétrica" (1784), o artigo de Franklin era mais uma sátira leve do que uma proposta concreta. Por isso, considera-se que o artigo de Hudson foi a primeira tentativa real de tornar realidade isso que, no hemisfério sul, chamamos de horário de verão.

Desgraçadamente, o artigo de Hudson foi recebido com desdém. É "não científico e impraticável", disseram alguns; "absolutamente fora de questão", disseram outros, alterar um sistema que funcionava tão perfeitamente. A mudança de horário acabou adotada na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) para economizar combustível nos sistemas de iluminação artificial. Hoje ele é utilizado em mais de setenta países em todo o mundo. BS

 

"Todo mundo gosta das longas noites de céu claro

e lamenta o seu encurtamento."

William Willett, The Waste of Daylight (1907)

 

Fonte:

ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. Pág. 589

 

"Poder absoluto corrompe absolutamente"

Platão

 

Ideia de que deter poder absoluto inevitavelmente terá um efeito corruptor


 

"O poder tende a corromper, e poder absoluto corrompe absolutamente...                              Não há pior heresia que a crença de que o ofício santifica quem o exerce."

Sir John Dalberg-Acton, em carta para o bispo Mandell Creighton (1887)

 

Provavelmente a expressão mais antiga da noção segundo a qual o poder tem um efeito corruptor é a que aparece na parábola do Anel de Gyges, em A República (360 a.C.), de Platão (424-348 a.C.). Nessa parábola, Gyges, um homem até então virtuoso, passa a praticar ações corruptas depois de encontrar um anel mágico que o torna invisível.

Mas a origem da máxima “Poder absoluto corrompe absolutamente" data de muito tempo depois: é uma pará­frase da carta escrita em 1887 por Sir John Dalberg-Acton (1834-1902), um historiador inglês católico mais conheci­do como Lorde Acton, para o bispo Mandell Creighton. Na carta, Acton repreende Creighton por sua sugestão, em correspondência anterior, de que o papa, o rei ou qual­quer outra pessoa com um posto alto deveriam ser julga­dos com um rigor diferente daquele aplicado ao homem comum. Acton argumenta que, muito pelo contrário, "a responsabilidade histórica deve compensar a falta de res­ponsabilidade legal. O poder tende a corromper, e poder absoluto corrompe absolutamente".

Mas já havia pelo menos duas pessoas conhecidas por associarem poder com corrupção antes de Acton escrever a sua carta: em um discurso feito na Câmara dos Comuns- britânica em 1770, o primeiro-ministro William Pitt, conde de Chatham (1708-78), afirmou que o "poder ilimitado é capaz de corromper a mente daqueles que o possuem; e disso eu sei, meus lordes: onde a lei termina a tirania começa". A observação de Acton também foi antecipada pelo escritor, poeta e político francês Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine (1790-1869), que em sua disserta­ção França e Inglaterra: uma visão do futuro (1848) declarou que "não é apenas o escravo ou o servo que é melhora­do depois de tornar-se livre... o próprio senhor não ganha menos em qualquer aspecto... pois o poder absoluto cor­rompe as melhores naturezas". Acton também acreditava que poucos podiam resistir ao efeito corruptor do poder, declarando que "grandes homens são quase sempre maus homens". DM


 

ARP, Robert. 1001 idéias que mudaram nossa forma de pensar; tradução de André Fiker; Rio de Janeiro: Sextante, 2014. pag. 190.


  

Vida simples

Henry David Thoreau

Simplificar o modo de vida para aumentar o bem-estar espiritual

 

Receitas de vida simples existem desde tempos imemo­riais. Pode-se encontrá-las no taoísmo, no cristianismo pri­mitivo e nas antigas filosofias grega e romana. O filósofo suíço do século XVIII Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) louvou a simplicidade rústica numa época em que o entu­siasmo pela sofisticação da vida moderna estava em alta. Mas o pensador mais estreitamente associado às virtudes da vida simples é o transcendentalista americano Henry David Thoreau (1817-1862), cujos dois anos de experiência com a vida simples às margens da lagoa Walden, perto de Concord, em Massachusetts, foram imortalizados em seu clássico livro Walden, publicado em 1854. O transcenden­talista Thoreau acreditava na bondade intrínseca dos indi­víduos e da natureza, mas dizia que o melhor do ser huma­no era alcançado pela via da "autossuficiência" e da inde­pendência em face da influência corruptora da sociedade e de suas instituições.

Para Thoreau, a vida simples exigia que o indivíduo se afastasse do consumismo e do materialismo do mundo moderno e recuperasse o contato imediato com a nature­za para facilitar a autorreflexão. Hoje, para muitas pessoas, a prática voluntária da simplicidade e de um modo de vida mais conforme à natureza favorece a redução do estresse e das preocupações e o equilíbrio entre o trabalho e o lazer.

O primeiro passo para uma vida simples costuma ser a redução das posses e do consumo. Seus defensores reco­mendam suspender a busca incessante de novos prazeres e contentar-se com a satisfação das necessidades básicas. Muitos optam por cultivar o próprio alimento. A simples mudança de hábitos pode ajudar a transição gradual da ênfase no sucesso material para atividades que propor­cionem maior gratificação pessoal. Vida boa, nesse caso, é vida simples. GD


 "Contente-se com o que tem; regozije-se com as coisas como são. Quando você perceber que não falta nada, o mundo inteiro lhe pertencerá."

LaoTsé, filósofo taoísta 

Fonte: ARP, Robert. 1001 ideias que mudaram nossa forma de pensar. Rio de Janeiro: Sextante, 2014. P.502

 





Educação de Gradgrind

Charles Dickens

Filosofia ficcional que critica o utilitarismo na educação


Em 1854 o escritor inglês Charles Dickens (1812-70) publi­cou o seu décimo romance, Tempos difíceis, uma ardente denúncia das ideologias morais, políticas e sociais que con­siderava ^responsáveis pela perpetuação das agruras dos pobres na Inglaterra de meados do século XIX. Ambien­tado em meio às fábricas e chaminés da cidade industrial fictícia de Coketown, Tempos difíceis conta a história de Thomas Gradgrind, sua família, agregados e pessoas com as quais a sua vida se entrelaça. Comerciante aposentado convertido em diretor de escola, Gradgrind defende uma filosofia de egoísmo racional e calculista exclusivamente focada na frieza dos fatos e números. Os acontecimentos acabam, porém, levando-o a renunciar à sua filosofia, retra­tada como uma imprevista fonte de aflições para todos que o cercam.

Os fracassos da filosofia educacional de Gradgrind se pretendem uma lição prática sobre a insensatez da visão "utilitarista" que nega o valor de tudo o que não possa ser economicamente quantificado ou medido, como a curio­sidade e o exercício da imaginação. "Com régua, balança e tabuada no bolso", Gradgrind "está sempre pronto para medir e pesar qualquer parte da natureza humana e dizer do que se trata exatamente. É apenas uma questão de números, um simples caso de aritmética". Bitolado em fatos e números e alheio às possibilidades da imaginação, ele é incapaz de perceber que os aspectos menos quantificáveis da existência, aqueles poderosos "sentimentos e emoções" a que devota tanto desdém, são justamente o que torna a vida digna de ser vivida.

O nome Gradgrind entrou para o vernáculo para signi­ficar a devoção desumana aos números e, em particular, à doutrina pedagógica que valoriza o aprendizado dos fatos em detrimento do cultivo das artes e humanidades. GD

 

 

 

 

 

'Um homem de realidades. Um homem de fatos e cálculos. Um homem para quem dois e dois são quatro e está acabado e não se fala mais no assunto"

Charles Dickens, Tempos difíceis (1854)

 

 

 

Fonte: ARP, Robert. 1001 ideias que mudaram nossa forma de pensar. Rio de Janeiro: Sextante, 2014. p, 503

 


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