AS AVENTURAS DE TELÊMACO - FÉNELON - anotações de leitura

 

FÉNELON. François de Salignac de La Mothe. (1651-1715) As aventuras de Telêmaco: filho de Ulisses. – São Paulo: Madras, 2006.

 

·       A juventude é presunçosa, ela espera tudo de si mesma: embora frágil, acredita poder tudo e nunca ter nada a temer, a juventude confia irrefletidamente e sem reservas (FÉNELON: 2006; 12)

 

·       “As façanhas enchem o coração de presunção perigosa; os erros obrigam o homem a recolher-se em si mesmo e lhe devolvem aquela prudência que os sucessos o privaram”. François de Salignac de La Mothe Fénelon (1651-1715)

 

·       “Os reis que pensam apenas em ser temidos e em subjugar seus súditos, para torná-los mais submissos, são o flagelo da espécie humana. Eles são temidos, como querem, mas são odiados, detestados e têm mais a temer de seus súditos de que estes têm a recear deles”. François de Salignac de La Mothe Fénelon (1651-1715)2006; 20



"É então acompanhado por Mentor e dele recebe suporte, orientação, inspiração e coragem para seguir em direção ao seu objetivo".


"As façanhas enchem o coração de presunção perigosa; os erros obrigam o homem a recolher-se em si mesmo e lhe devolvem aquela prudência que os sucessos o privaram".


12. A juventude é presunçosa, ela espera tudo de si mesma: embora frágil, acredita poder tudo e nunca ter nada a temer, a juventude confia irrefletidamente e sem reservas.


14. Antes de se lançar em algum perigo, é preciso antevê-lo e temê-lo, mas quando nele estamos, só resta desprezá-lo.

22. Os perversos irritam-se com as pessoas de bem.

23. Você poderá ser feliz se superar suas penas e se jamais as esquecer.

24. Você será grande na medida em que for moderado e tiver coragem para vencer as paixões.

24. Para suportar melhor o desgosto da escravidão e da solidão, procurei livros, pois eu estava prosptrado de tristeza pela falta de algum estudo que pudesse nutir meu espírito e sustentá-lo.


 

·       É assim que se deve conduzir os homens, sem constrangimento, mas por meio de recompensas e organização. O uso do poder sem que ele esteja associado a outras coisas não leva a bem nenhum: a submissão das pessoas menos privilegiadas não é suficiente, é preciso ganhar os corações e permitir que os homens colham vantagens nas coisas que sabem realizar e que nos podem ser úteis. FÉNELON, 39

 

·       Seja sábio o bastante para jamais falar por vaidade e calar-se sobre coisas que são vantajosas para você, quando não for útil falar sobre elas.

 

A VIRTUDE

·       Não há verdadeiros homens sobre a terra a não ser os que pedem conselho, amam e seguem a virtude; é ela que nos inspira quando pensamos de maneira correta, é ela que nos reprova quando pensamos mal. Ela nos dá tanto a razão como a vida. FÉNELON, 52

 

·       Quanto mais homens há em um país, desde que sejam trabalhadores, mais desfrutam de abundância: eles não precisam jamais ter inveja dos bens dos outros. FÉNELON, 56

 

·       A ambição e a avareza são as únicas fontes das desventuras dos homens: eles querem ter tudo e tornam-se infelizes quando são atingidos pelo desejo do supérfluo. Se os homens se dessem por satisfeitos quando têm atendidas suas reais necessidades, por todos os lados ver-se-iam abundância, alegria, paz e união. FÉNELON, 56.

 

·       Eu perguntei a Mentor no que se traduzia o poder do rei. Ele respon­deu: ele pode tudo no que toca ao povo, mas está submetido às leis. Ele tem poder absoluto para fazer o bem, mas as mãos manietadas a partir do momento em que pretende fazer o mal. As leis lhe conferem o povo como o mais precioso bem a ser guardado, mas sob condição de que ele aja como um pai em relação a seus súditos. Elas pretendem que um único homem zele, em razão de sua sabedoria e moderação, pela felicidade de tantos homens, e não que tantos sirvam, com sua miséria e sua submissão covarde, para lisonjear o orgulho e a lassidão de um único homem. O rei não deve ter mais que os demais, exceto o que é necessário para aliviá-lo em suas penosas funções ou impor aos povos o respeito a quem deve manter as leis. Aliás, o rei deve ser mais sóbrio, mais inimigo da indolência, mais isento de fausto e de altivez do que qualquer outro indivíduo. Ele não deve possuir mais rique­za ou desfrutar de mais prazeres do que os demais; em vez disso, precisa ter mais sabedoria, virtude e glória do que o restante dos homens. Ele deve ser o defensor da pátria, o comandante das frotas no que se refere às relações externas; no tocante as relações internas, deve ser o juiz do povo, visando a tomá-lo bom, sábio e feliz. Não é tanto por ele mesmo que os deuses o fazem rei; ele é rei para ser aquele que está apto a cuidar do povo: é que ele deve todo o seu tempo, todos os seus cuidados, toda a sua afei­ção. E ele é digno da realeza apenas na medida em que se esquece de si mesmo para se dedicar ao bem público.

Minos não quis que seus filhos reinassem depois dele, a não ser que governassem de acordo com seus preceitos. Ele amava mais seu povo do que sua família. Foi por meio dessa sabedoria que tomou Creta tão podero­sa e tão feliz; foi por meio de moderação que ele eclipsou a glória dos conquistadores que pretendem que os povos sirvam à sua própria grandeza, quer dizer, à sua vaidade, enfim, foi por sua justiça que mereceu ser, na mansão dos mortos, o soberano juiz dos mortos. (FÉNELON, 57)

 

·       O mais infeliz de todos os homens é aquele que acredita ser infeliz, pois a infelicidade depende menos das coisas que alguém suporta do que da impaciência com a qual aumentamos nossa infelicidade (FÉNELON: 2006; 63)

 

·       Os homens corruptos sabem o quanto seus semelhantes abusarão do poder, sabem quão grande será a sua violência e encontram-se em uma situação cômoda quanto têm a tratar com pessoas de bem, pois podem contar com sua moderação e indulgência. (FÉNELON, 94).

 

·       Quem não está disposto a passar por desventuras, não possui coração valente. (FÉNELON, 109).

 

·       Aquele que confessas seus erros ao inimigo, e se oferece para repará-los, demonstra desse modo que se tornou incapaz de cometê-los de novo; e o inimigo, a menos que faça a paz, tem tudo a temer de uma conduta tão sábia e tão firme. (FÉNELON ,130)

 

·       Quando a sabedoria e a virtude falar, elas apaziguam todas as paixões (FÉNELON, 131)

 

·       Para saber o que deve fazer é preciso que seja mais inspirado pela sabedoria e pela virtude do que pela presença de Mentor. (FÉNELON, 139)

 

·       A coragem de quem comanda os outros não pode deixar de inspirar confiança (FÉNELON, 139)

 

·       Mas também não vá procurar perigos sem que isso seja útil. A bravu­ra só é uma virtude na medida em que se pauta pela prudência. De outra forma, representa um desprezo insensato pela vida e um ímpeto brutal. A coragem desabrida não tem nada de firme. Um homem que não é senhor de si no perigo é mais fogoso do que valente; ele precisa estar fora de si para se pôr acima do medo, porque não pode superá-lo por sua própria índole. Nesse estado, se ele não foge, ao menos fica desorientado; perde a liberdade de espírito, de que precisaria para dar boas ordens, para aprovei­tar as ocasiões que se apresentarem, para destruir seus inimigos e servir sua pátria. Se ele possui o ardor de um soldado, não tem o discernimento de um capitão. Ele não possui nem mesmo a verdadeira coragem de um solda­do, porque este deve manter no combate a presença de espírito e a mode­ração necessária para obedecer. Quem se expõe precipitadamente atrapa­lha a disciplina da tropa, dá um exemplo de temeridade e muitas vezes expõe o exército inteiro a uma grande desgraça. Aqueles que preferem sua presunçosa ambição à caução da causa comum merecem punição e não recompensa.(FÉNELON, 139)

 

·       Então, meu querido filho, evite perseguir a glória com impaciência. A verdadeira maneira de encontrá-la é esperando tranqüilamente a ocasião propicia. A virtude é mais respeitada na medida em que ela se revela singe­la, modesta, inimiga de qualquer pompa. Na medida em que o perigo au­menta, toma-se necessário poder contar com novos e crescentes recursos, é preciso mais cautela e mais coragem. Além disso, lembre-se de que não se deve atrair a inveja de ninguém. No que o toca, não, sinta ciúme do sucesso dos outros. Elogie o bom êxito dos outros quando merecerem, mas aplauda com discernimento.

Não tome decisões diante desses velhos comandantes com quem estará; eles têm toda uma experiência que você ainda não possui: escute-os com deferência, consulte-os, peça aos mais sábios que o instruam e não sinta vergonha de imputar aos ensinamentos que eles lhe deram tudo o que você fizer de melhor. Por fim, não escute, jamais, as arengas com que virão tentar provocar sua desconfiança ou sua inveja relativamente aos outros chefes. Fale com eles com confiança e boa-fé. Se pensar que eles cometeram alguma falta em relação a você, abra o coração e expli­que suas razões. Se eles forem capazes de perceber a nobreza dessa conduta, você lhes terá causado uma viva satisfação, e conseguirá deles tudo o que tiver motivo de esperar. Se, pelo contrário, eles não forem suficientemente razoáveis para entender seus sentimentos, você terá aprendido por si mesmo o que há de injusto neles, e tomará medidas para que o que tiver acontecido não se repita, até que a guerra acabe e você não tenha nada a se reprovar. Mas, sobretudo, não conte nunca a certos aduladores que semeiam a discórdia os motivos que acredita ter contra os chefes do exército no qual serve. (FÉNELON, 140)

 

·       Não se encontram nos homens nem as virtudes nem os talentos que neles procuramos. Por mais que os estudemos e aprofundemos nosso conhecimento, nos frustramos todos os dias. Não acabamos nunca de formas homens melhores para os povos. Eles têm suas teimosias, suas incompatibilidades, suas invejas. Não conseguimos dissuadi-los nem corrigi-los. (FÉNELON, 141)

 

·       O poder submete os talentos à rude prova e expõe grandes defeitos. (FÉNELON, 141)

 

·       Os mais longos e melhores reinados são curtos e imperfeitos demais para se conseguir corrigir, antes do seu término, os erros cometidos sem intenção, no seu começo. (FÉNELON, 141)

 

·       Os maiores homens têm defeitos que os arrastam, em razão do seu temperamento e das características do espírito: os mais dignos de louvor são os que reconhecem e corrigem seus deslizes. (FÉNELON, 142)

 

·       A juventude sem experiência se entrega a uma crítica presunçosa que a faz desviar de todos os modelos que precisaria seguir, e a atira em uma indocilidade incorrigível. (FÉNELON, 142)

·       É uma crença odiosa acreditar que só se pode ter segurança oprimin­do o povo. Não instruir o povo, não levá-lo à virtude, governá-lo sem nunca se fazer amar acaba por empurrá-lo, pelo terror, até o desespero. Levar o povo à mais atroz penúria, ou não permitir jamais que ele respire livremen­te, o levará a tentar derrubar o jugo de sua dominação tirânica. Será esse o verdadeiro caminho que leva à glória?

Lembre-se de que nos países onde há domínio absoluto do soberano os governantes são menos poderosos. Eles apoderam-se das coisas, arrui­nam tudo, possuem sozinhos todo o Estado, mas em compensação o Estado se enfraquece, o campo não é cultivado e está quase deserto, as cidades encolhem todos os dias, o comércio perde a pujança. O rei, que não pode governar sozinho, se apequena pouco a pouco pela extinção do povo do qual ele extrai sua riqueza e seu poderio. Seu Estado fica sem dinheiro e homens, e a perda de gente é a maior e a mais irreparável de todas. Seu poder absoluto o leva a ter tanto escravos quanto súditos. Ele é bajulado, seus súditos fingem adorá-lo, tremem ao menor de seus olhares, mas à menor agitação esse enorme poder, levado ao extremo, não logra manter-se: esse rei não tem nenhum apoio no coração do povo, ele cansou e exasperou toda a estrutura do Estado, permitiu que todos que participam dessa estrutura desejem uma mudança. Ao primeiro golpe que lhe é lançado, essa figura adulada tomba, quebra-se, é desprezada. O desdém, a raiva, o medo, o ressentimento, a desconfiança; em uma palavra, todas as paixões, juntam- se contra uma autoridade tão execrável. O rei, que em sua vã prosperidade não encontrará um único homem bastante corajoso para lhe dizer a verda­de, não achará na sua desdita nenhum que se digne perdoá-lo, nem defendê-lo contra seus inimigos.(FÉNELON, 151)

 

·       A grandeza não consiste em elevar-se acima dos outros, mas em vencer a si mesmo e não praticar nenhum ato vil. (FÉNELON, 154)

 

·       Na verdadeira virtude existe uma candura e uma ingenuidade que não podem ser fingidas e, contanto que se esteja atento, não devem ser tomadas por algo diferente do que elas são. (FÉNELON, 155)

 

 

·       As pessoas maliciosas têm dificuldade para permanecer unidas (FÉNELON, 159)

 

·       Você conhece, meu caro Mentor, a fútil arrogância e a falsa glória na qual os reis são educados: eles não querem nunca deixar de ter razão. Para encobrir um erro, cometem outros cem. Em vez de confessar que se enganaram, e se dar ao trabalho de voltar atrás, eles preferem se deixar iludir a vida toda. É nessa situação que se encontram os príncipes que carecem de força e são negligentes.  (FÉNELON, 160-161)

 

 

·       Os homens que se mostram insolentes na prosperidade se revelam sempre frouxos e titubeantes na adversidade (FÉNELON, 161)

 

·       Saiba que indivíduos perversos são capazes de fazer o bem quando isso pode ser útil à sua ambição. (FÉNELON, 163)

 

 

·       Os deuses não dão aos perversos olhos para reconhecerem as pessoas de bem, mas dão a estas o dom de se distinguirem entre si. As pessoas que amam a virtude não podem estar juntas sem permanecer ligadas pelo laço em comum. (FÉNELON, 172)

 

·       Quando a virtude é serena, simples, ingênua e modesta, acaba por superar tudo o mais. (FÉNELON, 178)

 

·       Quão grande é a fragilidade e a inconstância dos homens: eles esperam tudo de si, e não resistem a pequenas coisas. (FÉNELON, 178)

 

·       Esperava que minha cólera  se aplacasse porque ele sabia que não se deve confrontar as paixões dos homens, para levá-los à razão, senão quando essas paixões começam a perder o ímpeto por uma espécie de esgotamento. (FÉNELON, 186)

 

·       Por natureza, Telêmaco era bondoso e sincero, mas pouco carinhoso, não se preocupava em tentar saber o que poderia agradar aos outros, não era uma pessoa apegada à riqueza, mas não sabia dar. Embora possuísse um coração nobre e inclinado ao bem, ele não tinha o hábito de ajudar; não era sensível à amizade, nem generoso, nem se mostrava reconhecido pelo cui­dado com que era tratado, nem se mantinha atento tentando descobrir o mérito que motiva as ações dos homens. Deixava-se guiar por seu impulso, agia sem refletir. Sua mãe Penélope o havia ensinado, apesar de Mentor, a se mostrar altivo e orgulhoso, e sua altivez e orgulho obscureciam o que havia de mais digno de ser amado nele. Ele se julgava possuidor de uma natureza diferente da dos demais: os outros pareciam ter sido postos na Terra pelos deuses para agradá-lo, para servi-lo, para antecipar todos os seus desejos e tudo trazer a ele, como se fosse uma divindade. A felicidade de servi-lo era, segundo ele pensava, recompensa suficiente. Nada devia ser impossível quando se tratava de contentar sua vontade, e a menor de­mora irritava sua natureza fogosa.

Aqueles que o julgavam apenas por seu natural poderiam pensar que ele era incapaz de amar outra coisa que não a si mesmo e que a glória e o contentamento eram as únicas coisas capazes de sensibilizá-lo. No entanto, a indiferença pelos outros e a atenção que ele mantinha centrada em si eram o resultado do arrebatamento contínuo no qual estava jogado pela violência de suas paixões. Ele havia sido mimado pela mãe desde o nascimento e era o exemplo acabado da infelicidade dos que nascem em posição tão alta na sociedade. A dureza do destino, que ele sentiu desde muito jovem, não havia diminuído sua impetuosidade nem sua altivez. Pri­vado de tudo, abandonado, exposto a tanto sofrimento, ele não tinha per­dido nada de seu orgulho. Sempre se erguia de novo, como o leve ramo da palmeira, não importando o esforço que se faça para abaixá-lo.

Enquanto Telêmaco esteve com Mentor, esses defeitos não eram aparentes, e diminuíam todos os dias. Como um belo cavalo fogoso que empina nas vastas planícies e só pode ser domado pela voz e pela mão de um único homem, Telêmaco, cheio de nobre ardor, só podia ser contido por Mentor. Um único olhar de Mentor era capaz de deter sua impetuosi­dade; ele procurava entender o que isso significava e sem demora o sen­timento da virtude irrompia em seu coração. A sabedoria de Mentor fazia seu rosto assumir, imediatamente, um ar sereno e sossegado. Mesmo Netuno, quando levanta seu tridente e ameaça as ondas revoltosas, não pacifica mais rapidamente as mais negras tempestades. (FÉNELON, 189-191)

·       Reconhecia que a verdadeira grandeza reside na moderação, na justiça, na modéstia e no sentimento de humanidade. (FÉNELON,  193)

·       Os homens sinceros e virtuosos, que não mudam sua forma de ser e se submetem aos preceitos da virtude, não conseguiriam jamais, agradar tanto aos príncipes quanto as pessoas que favorecem suas paixões dominantes. (FÉNELON, 195-196)

·       É assim que a audácia e o trabalho obstinado superam os maiores obstáculos, que não há quase nada que seja impossível para aqueles que sabem ousar e estão dispostos a sofrer; e é assim que os que não se mantêm vigilantes, achando que as coisas difíceis são impossíveis, merecem ser surpreendidos e aniquilados. (FÉNELON, 196)

·       É curta a glória e a prosperidade das pessoas perversas. (FÉNELON, 199)

 

·                 Ah!, exclamou ele, eis os males que a guerra traz no seu rastro! Que fúria cega leva os desgraçados mortais a guerrear! Eles têm tão poucos dias a viver sobre a Terra, dias tão miseráveis, por que ajuntar tanta desolação funesta à amargura com que os deuses encheram essa vida tão curta? Todos os homens são irmãos e eles se trucidam, os ani­mais selvagens são menos cruéis. Os leões não guerreiam com os leões, nem os tigres com os tigres, eles só atacam animais de espécie diferente: só o homem, apesar de sua razão, faz o que os animais sem razão jamais fizeram. Mas por que tais guerras? Não há bastante terra no Universo, mais do que os homens podem cultivar? Há tanta terra despovoada, mais do que a espécie humana poderia povoar. Uma falsa glória e um vazio rótulo de conquistador que um príncipe quer conquistar ateiam a guerra em regiões imensas! Assim, um único homem, vindo ao mundo pela cólera dos deuses, sacrifica brutalmente tantos outros à sua vaidade: é preciso que tudo pereça, nade em sangue, seja devorado pelas chamas, que o que escapa das chamas e das armas não possa fugir da mais cruel fome para que um único homem, que zomba da natureza humana, encontre nessa destruição generalizada seu prazer e sua glória! Que glória monstruosa! Será possível execrar e desprezar suficientemente os homens que tanto esqueceram a humanidade? Não, não, longe de serem semideuses, nem mesmo são homens: eles precisam ser execrados até o fim dos séculos. Oh! Como os reis precisam ter cuidado com as guerras que fazem! Elas precisam ter um motivo justo, mas isso não é suficiente, devem ser ne­cessárias para o bem público. O sangue de um povo só deve ser derrama­do para salvá-lo de necessidades extremas. Mas os conselhos que visam apenas a lisonjear o rei, as falsas idéias sobre o que é a glória, a inveja descabida, a avidez que se esconde debaixo de belos pretextos, os com­promissos que não levam em conta a ética quase sempre arrastam os reis a que se tomem desgraçados, guerras nas quais eles arriscam tudo sem necessidade, as quais fazem mal tanto aos próprios súditos quanto a seus inimigos. Assim refletia Telêmaco.

Mas ele não se contentava apenas em deplorar os males da guerra, tentava amenizá-los. Ia, em pessoa, às tendas socorrer os doentes e os moribundos, dava-lhes dinheiro e remédios, consolava e encorajava-os com palavras repletas de amizade e mandava que seus subordinados assistissem os soldados que ele não podia visitar.

Entre os cretenses que estavam com ele havia dois anciãos, um se chamava Traumáfilo e o outro, Nosófogo.

Traumáfilo esteve no cerco de Tróia com Idômene e havia aprendido com os filhos de Esculápio a arte divina de curar as chagas. Ele espalhava nas feridas mais profundas e malignas um líquido odorífico que consumia as carnes mortas e gangrenadas, sem necessidade de nenhuma incisão, e for­mava rapidamente mais tecido novo e bom.

No que diz respeito a Nosófogo, ele jamais havia visto os filhos de Esculápio mas tinha recebido, graças a Mérion, um livro sagrado e miste­rioso que Esculápio havia dado a seus filhos. Além disso, Nosófogo era amigo dos deuses: ele havia composto hinos em honra dos filhos de Latona e todos os dias sacrificava uma ovelha branca e sem manchas a Apoio, que constantemente o inspirava. Mal via um acamado, ele descobria a partir de seus olhos, da cor de sua tez, da conformação de seu corpo e de sua respiração, a causa da doença. Ora ele ministrava remédios que faziam transpi­rar e demonstrava como a transpiração, restringida ou facilitada, desarran­ja ou restabelece o organismo; ora ele ministrava, para a apatia, certas beberagens que aos poucos fortificavam as vísceras e rejuvenesciam os homens suavizando seu sangue. No entanto, ele assegurava que os homens precisavam com tanta freqüência de remédios porque careciam de virtude e de coragem. E uma vergonha para os homens, dizia ele, que eles tenham tantas doenças porque os bons costumes proporcionam saúde. A intemperança dos homens, dizia ainda, transforma em veneno mortal os alimentos destinados a conservar a vida. Os prazeres sem moderação abre­viam mais os dias das pessoas do que os remédios conseguem prolongá-los. Há menos pobres doentes por falta de comida que ricos enfermos por excesso dela. Os alimentos que privilegiam o gosto incitam a comer além do necessário e envenenam em vez de alimentar. Os próprios remédios são um mal do qual é preciso servir-se apenas quando houver necessidade pre­mente. O grande remédio, sempre inofensivo e útil, é a sobriedade, é a temperança em todos os prazeres, é a tranqüilidade de espírito, é o exerci­tar o corpo. Com ele obtém-se um sangue calmo e comedido e os humores supérfluos se dissipam. Como conseqüência dessas concepções, o sábio Nosófogo era considerado um portento, menos por seus remédios que pelo regime que preconizava para evitar as doenças e tomar os remédios inúteis.

Telêmaco enviou estes dois em visita a todos os doentes do exérci­to. Com seus remédios, curaram muitos desses homens, mas os curaram, sobretudo, com os cuidados com que os cercaram: eles os mantinham limpos e procuravam evitar o ar malsão com essa higiene, e os faziam manter um regime de estrita sobriedade durante sua convalescença. Toca­dos por esse auxílio, os soldados rendiam graças aos deuses por ter Telêmaco no exército aliado. (FÉNELON, 203-204)

 

·                 O mais precioso dom que os deuses podem conceder aos homens ao lhe dar, junto com a sabedoria, um coração sensível à amizade. (FÉNELON, 207)

 

 

·                Chamava a atenção que o pior destes três reis era o que havia recebido os mais estupendos elogios durante sua vida, porque os perversos são mais temidos do que as pessoas bondosas e exigem despudoradamente as mais vis adulações dos poetas e oradores de seu tempo (FÉNELON, 271)

 

·                Vendo-o reinar com tanta indolência e cercado por covardes bajuladores, eu aprendi a gostar da adulação e dos prazeres. Eu pensava que o resto dos homens estava para os reis como os cavalos e os demais animais de carga estão para os homens, quer dizer, pensei que eles eram animais a que não se dá importância, contanto que prestem serviços e nos proporcionem comodidade (FÉNELON, 218)

 

·                 Como a realeza é engana­dora! Quando a olhamos de longe só enxergamos grandeza, brilho e delícias, mas de perto tudo é espinhoso. Uma pessoa que não tem função pública pode levar, sem se desonrar, uma vida amena e obscura. Um rei não pode, sem perder a honra, preferir uma vida fácil e ociosa às funções penosas do gover­no: ele tem obrigações perante todos os homens que governa e não lhe é, nunca, facultado cuidar de si mesmo. Seus menores erros têm consequências infindas, pois trazem infelicidade para o povo, e às vezes por muitos séculos. Ele precisa reprimir a audácia das pessoas perversas, sustentar a inocência, destruir a calúnia. Não basta que ele deixe de fazer o mal, é preciso que ele faça todo o bem possível, o bem de que o Estado precisa. Não basta que realize o bem, ele precisa impedir o mal que outros fariam se não fossem impedidos. Então tema, meu filho, uma posição tão perigosa: arme-se de coragem contra você mesmo, as paixões e os bajuladores.

Ao dizer essas palavras, Arcésius parecia animado por uma veemên­cia divina, e seu semblante estava cheio de compaixão pelos tormentos que acompanham a realeza. Quando um rei se limita a satisfazer a si, seu go­verno transforma-se em uma tirania monstruosa; quando o rei pretende cumprir seus deveres e guiar um povo como um pai guia seus filhos, seu governo se transforma em uma servidão pesada que demanda coragem e paciência heróicas. Do mesmo modo, é indiscutível que os reis que reina­ram com virtude sincera têm aqui tudo o que o poder dos deuses pode proporcionar para uma felicidade completa. (FÉNELON, 225)

 

 

 

 

 

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