ESTOICISMO PARA LEIGOS - TOM MORRIS - notas de leitura

 

MORRIS, Tom. Estoicismo para leigos. - 1.ed. - Rio de Janeiro Alta Books, 2025.


ESTOICISMO PARA LEIGOS.

A morte não deve ser temida.

As duas coisas mais peculiares dos seres humanos são a razão e a relacionalidade. Somos capazes de pensar de maneira poderosa e complexa, e formar comunidades incríveis e sofisticadas.

Não são as coisas do mundo que nos perturbam, mas como pensamos sobre elas.

O único bem verdadeiro é a virtude (a palavra grega areté, traduzida como virtude, significa "força interior"). A única coisa ruim é o vício (um tipo de falha ou fraqueza moral).

Para ter uma vida feliz, é preciso pouca coisa. Tente ser bom. A excelência moral por si só já é suficiente.

Todos temos círculos de influência e pertencimento no mundo. Quando os usamos bem, começando pelo mais próximo, podemos melhorar até o que está longe.

Uma pessoa boa não precisa temer o mal de nada nem de ninguém. A única coisa que pode nos prejudicar são nossas escolhas equivocadas feitas por vontade própria.

 


Estoicismo leigos

 

PROBLEMAS CORRIQUEIROS QUE O ESTOICISMO PODE RESOLVER

 

É uma filosofia e um estabilizador de humor!

A abordagem estoica ajuda qualquer pessoa neste mundo insano a lidar com todos os tipos de problemas, incluindo estes:

 

Ansiedade social

Frustração

Impaciência

Mudanças e incertezas incômodas

Pessoas difíceis

Pessoas estúpidas

Preocupação e medo

Raiva

Redes sociais (desculpe, estamos nos repetindo)

Solidão

Tristeza e depressão


Como o estoicismo pode ajudar com esses problemas? Permitindo que você melhore ao:

• Cultivar melhores relacionamentos

• Desenvolver a autodisciplina e o autocontrole

• Encontrar tranquilidade

• Formar boas equipes e comunidades mais fortes

• Ser uma pessoa mais ética

• Ter clareza e foco

 

Fonte:

Morris, Tom. Estoicismo para leigos. Schreiner. - 1.ed . - Rio de Janeiro : Alta Books, 2025.

 

Sêneca escreve o que ele acha que a filosofia não é, bem como o que é de fato. As palavras dele são tão relevantes atualmente quanto eram em sua época:

 

“A filosofia não é um truque para atrair o público – não é feita para exibição. Não se trata de palavras, mas de fatos. Não é buscada para que o dia nos traga algum divertimento antes de acabar, ou para aliviar o tédio que nos incomoda no tempo livre. Molda e constrói a alma. Ordena nossa vida, orienta nossa conduta, mostra o que devemos fazer e o que devemos evitar. Ocupa o leme e dirige nosso rumo quando hesitamos em meio às incertezas. Sem ela, ninguém pode viver intrepidamente ou em paz de espírito. Inúmeras coisas que acontecem a cada hora exigem orientação - e é na filosofia que se deve buscar esse conselho.” (Cartas 16.3)

Refletindo mais tarde sobre porque ele ou qualquer pessoa precisa da filosofia como ajuda neste mundo, o mesmo pensador estoico escreve estas palavras, como se estivesse se dirigindo à própria filosofia com suas necessidades urgentes:

 

O que devo fazer? A morte me persegue, e a vida escorre por entre os dedos. Ensina-me algo que possa usar para enfrentar essas tribulações. Dá-me coragem para encarar as dificuldades, serenidade diante do inevitável. Alarga os estreitos limites do tempo que me foi concedido. Mostra-me que o bem da vida não depende de sua duração, mas do uso que fazemos dela. (Cartas 49.9-10)

 

 

Filosofia teórica (acadêmica) , que trata da análise, da argumentação e do aprimoramento de nossas ideias.

 

Filosofia prática, que trata da análise, da argumentação e do avanço de nossas vidas.

 


O que é de fato importante na vida não é o dinheiro, a fama ou outros bens mundanos, como a maioria das pessoas pensa; é a sabedoria e a bondade, ou o que Sócrates gostava de chamar de "cuidados com a alma".

 

A bondade ("virtude" ou "excelência", que os gregos chamavam de aretê) é tudo o que você precisa para alcançar a verdadeira felicidade. A virtude é suficiente para ter uma vida plenamente feliz.

 

"Nenhum mal pode atingir uma pessoa boa" (Platão, Apologia 41d).

 

Virtude é conhecimento. Ou seja, qualquer pessoa que saiba verdadeira e profundamente o que é bom sempre e necessariamente fará o que é bom.

 

Ninguém comete erros voluntariamente; toda ação errada acontece, em um sentido relevante, de maneira involuntária e baseada na ignorância.


p.11 - SABEDORIA é o bem perfeito da mente humana; FILOSOFIA é o amor à sabedoria e o esforço para alcançá-la. SÊNECA (4 a.C. 65 d.C.) Cartas 89.4


p.15 - Com frequência, achamos que precisamos de informações quando a verdadeira prioridade é transformação.


p.65 - A natureza está em constante transformação, sempre em estado de "tornar-se" e nunca em estado de "ser" estável ou completo.


p.67 - 68 - A tranquilidade mental também pode ser afetada por guerras, desastres naturais, recessões econômicas e outros eventos negativos que aparecem nos noticiários ou nas redes sociais. O mundo físico é, de fato, um campo minado metafórico de problemas e desafios.


p.127 - As preocupações, o estresse e talvez até todas as manifestações de ansiedade são resultado do desejo de ter algo que não está sob nosso controle.

p. 137 - Quando nos concentramos em coisas que não podemos controlar completamente, ficamos vulneráveis a forças capazes de nos perturbar com emoções negativas, como irritação, frustração, raiva, medo, decepção e desespero. São justamente essas emoções que mais frequentemente afetam nossa capacidade de usar a razão.

Elas nos perturbam e nos induzem a pensamentos, sentimentos, atitudes e ações

irracionais.  

 

p.137 -  Acontece que, quando analisamos a fundo a natureza humana, descobrimos que aparentemente todos temos uma medida de razão concedida a nós, uma capacidade de pensar racionalmente, mas que essa não é a verdade sobre nossa essência como seres humanos. Também nascemos com uma relacionalidade inata, uma tendência a responder positivamente a outras pessoas, a fazer amizades e parcerias, e a entrar em modos de interdependência nesses relacionamentos. Os seres humanos só florescem em comunidade com outras pessoas.


p.164 - Parece que fomos feitos para viajar e não apenas para chegar.

p. 166 – 167 - As múltiplas facetas da felicidade

Os antigos consideravam a felicidade um estado de ser. As pessoas modernas tendem a concebê-la como um estado de sentir. Aqueles que não pensaram o suficiente sobre o assunto o interpretam de maneira equivocada como um estado de ter. Em vez disso, ela pode ser mais parecida com um processo de tornar-se. É um estado dinâmico e progressivo que envolve definição, busca e realização sequencial e episódica de objetivos, ou alternativas inesperadas a esses objetivos que são descobertas apenas durante a busca e que são adequadas para você e para as pessoas ao redor, de modo a permitir seu desenvolvimento e o desfrute do processo ao longo do caminho. É um esforço prolongado que permanece em andamento enquanto você estiver vivo. Envolve não só satisfazer seus desejos, mas também se livrar de alguns deles, superar outros, aprofundar alguns, buscar aqueles que são adequados para você com coragem e esperança e, durante o processo, encontrar novos desejos que você nunca teve antes. Contudo, em meio a tudo isso, é um processo de agir, adaptar-se, descobrir e tornar-se.

A felicidade não é algo fácil e contínuo. Parece ter sido construída com base no contentamento, na satisfação, no prazer e no amor. Ela é profunda, complexa, rica e está sempre se transformando em sua incorporação específica na vida. Mas existem aspectos básicos que são universais. Você pode ser feliz com ou sem muito dinheiro.

A felicidade pode acontecer com ou sem muita saúde. Mas você não pode ser feliz sem qualquer nível de virtude, satisfação ou esperança. E, assim como a virtude e a satisfação, a esperança tem diversas formas. A vida é uma aventura ou, melhor ainda, uma série de aventuras, sendo que cada uma o prepara para a próxima e, muitas vezes, de maneiras inimagináveis. Quando compreendemos essa percepção, ficamos mais perto de entender a vida boa e feliz de que precisamos.


p.178 O prazer pode nos afastar dos deuses e a dor pode nos voltar contra eles. 


p.219 O amor é simplesmente estar comprometido com outras pessoas em termos intelectuais, estéticos, morais e espirituais, buscando honrá-las com a Verdade, a Beleza, a Bondade e a Unidade de todas as formas possíveis. O resultado pode ser uma comunidade harmoniosa.


p. 205 - 224 Capítulo 13

NESTE CAPÍTULO

Ü Consultando filósofos sobre sociabilidade

Ü Entendendo o impulso humano para formar comunidades

Ü Desmascarando Platão e Aristóteles nos bastidores

Ü Usando círculos concêntricos para explicar tudo

 

Construindo Comunidades Fortes

 

Ao longo da história, todas as formas de comunidade humana foram desafiadas e, muitas vezes, destruídas tanto por ameaças externas quanto por perturbações internas. A situação atual não é diferente, exceto pelo fato de que, em todas as escalas, nossas comunidades podem enfrentar mais tipos de perigo e em um nível de gravidade maior do que nunca.

 

Os estoicos têm percepções importantes sobre família, amizade, comunidade e o papel adequado da política na vida que podem ser extremamente úteis hoje. A sabedoria deles sobre esses tópicos pode lhe trazer perspectivas novas e essenciais para a sociabilidade e a comunidade, e para um tipo mais saudável de política. Neste capítulo, apresentamos alguns dos pensamentos e sugestões inovadores deles para criar comunidades incríveis e aproveitar ao máximo a vida em comum.

 

Filósofos como Conselheiros Sociais

 

No início, você pode se surpreender com a ideia de recorrer a filósofos para ter

insights sobre como ser sociável e criar uma comunidade. Afinal, a representação

visual mais célebre da filosofia é provavelmente a escultura O Pensador, de August

Rodin, que representa um homem sentado sozinho em uma pedra, olhando para

o vazio, presumivelmente refletindo sobre a mais profunda verdade. Caso você

nunca tenha notado, ele está completamente nu. Não é exatamente um retrato do

convívio social, mas, de um homem que precisa de um pouco de solidão. E calças.

Você também pode ser uma das muitas pessoas que cursaram filosofia em algum

momento com um professor que era o tipo de pessoa estranha que, se você passasse por ele no corredor no início do dia e cometesse o erro de dizer "Bom dia".

ele poderia ter feito uma careta e parado para provar que você estava errado, discutindo sobre seu sentimento de alegria por tempo suficiente para convencê-lo

de que, sim, talvez você tivesse sido um pouco precipitado em sua conclusão. Os

filósofos não são particularmente conhecidos por serem calorosos e sociáveis,

pelo contrário, são vistos com muita frequência como resmungões inconvenientes, prontos para dizer que você apresentou um argumento ruim para defender uma posição indefensável e que qualquer coisa que tenha acabado de dizer em voz

alta na presença deles é simples e imperdoavelmente falso. Mas fique tranquilo,

não é só com você. Na história da filosofia, todos os pensadores mais famosos

parecem ter acreditado que a maioria das outras grandes mentes antes deles e em

sua época estavam total, lamentável e ridiculamente erradas sobre a maioria das

coisas. Os cães latem. Os filósofos discordam.

De fato, foi o filósofo britânico Thomas Hobbes que afirmou que, em nossa con-

dição mais natural, o que ele via como "o estado de natureza", os seres humanos

são todos inimigos uns dos outros e estão em guerra. O existencialista francês

Jean-Paul Sartre é inclusive conhecido pela ousada declaração de que "o inferno

são as outras pessoas". Porém, do outro lado da questão, pode haver alguma evidência positiva de sociabilidade filosófica a ser considerada.

 

Há alguns anos, o New York Times fez um estudo para determinar o local mais popular em Manhattan para ficar com alguém ou conhecer uma pessoa nova, marcar um encontro com possibilidades românticas em mente, e o jornal surpreendeu o mundo ao declarar que o local de encontro número 1 era, sem dúvida uma grande livraria no centro da cidade e, em especial, que o maior número de ações sociais era observado na área exata da loja, na seção de filosofia e arredores. É verdade. Mas, por outro lado, talvez isso se deva ao fato de que as pessoas que encontramos lá provavelmente não estão fazendo nada no sábado à noite, na sexta à noite ou em qualquer outra noite. Isso pode não ser uma evidência que relaciona filosofia e sociabilidade. Ainda assim, os filósofos estoicos, em particular, parecem ter sido decentemente amigáveis com outras pessoas e tiveram também, algumas das maiores e mais duradouras percepções sobre relacionamentos e comunidades.

 

Em todos os lugares do mundo, neste momento, vemos um anseio por comunidade

e pertencimento. Psicólogos e sociólogos falam de "uma epidemia de solidão" e de uma "recessão permanente" de amizades íntimas e conexões sociais estimulantes. Muitas das fontes tradicionais de vínculo e inclusão social e comunitária - família, trabalho, vizinhança, escola, governos locais e nacionais - parecem, hoje, estar se desgastando e se fragmentando. Em cubículos, salas de Zoom e vivendo cada vez mais uma vida digital, nos sentimos como átomos sociais em casulos solitários. Ouvimos muito sobre direitos e prerrogativas individuais, mas muito pouco sobre responsabilidades sociais, comunidades saudáveis e sacrifício por algo maior do que o próprio eu.

Os estoicos estavam muito cientes dos perigos do isolamento e da fragmentação social. Conforme observamos nos primeiros capítulos deste livro, os primeiros estoicos viveram quando a cidade-estado grega (a polis), a base de toda a vida comunitária grega e da autodeterminação política, foi destruída e devorada à força por novos e enormes impérios estrangeiros (primeiro o macedônio, depois o romano). A partir dessa perda devastadora da autodeterminação e da identidade cultural, os estoicos criaram novas e poderosas ideias para a construção de comunidades e para lidar com problemas políticos e fatores de estresse que estão além do nosso controle pessoal. Será proveitoso mergulhar em suas perspectivas.

 

Duas Bases da Comunidade

 

Desde os primórdios do estoicismo, seus proeminentes pensadores pioneiros afirmaram que as duas características mais importantes e peculiares dos seres humanos, que nos diferenciam e nos definem, são a razão e a relacionalidade.

 

è Razão é nossa capacidade de viver com clareza e continuidade de pensamento

lógico. Ao que tudo indica, somos capazes de pensar de modo mais complexo do

que qualquer outra criatura da natureza na Terra, respondendo em diferentes

níveis a coisas como evidências e lógica, descobrindo novas ideias, testando-as

e estabelecendo suas conexões, enquanto avaliamos sua utilidade e verdade.

Descobrimos a matemática, e o uso que fizemos da razão deu origem à ciência.

Nossa capacidade de raciocinar, ou ter a importante atividade de raciocínio

disponível em quase todos os momentos, é um de nossos principais pontos

fortes.

è Relacionalidade é um atributo humano igualmente importante. Parece que

temos uma disposição natural para viver em comunidade, prosperando melhor

no relacionamento com os outros. A razão inata, bem ou mal utilizada, dá

origem à mentalidade e ao caráter, e nossa capacidade de se relacionar produz

uma reciprocidade natural com outras pessoas capaz de criar uma forma de

comunidade saudável.

Refletimos e nos conectamos. Ambas as habilidades essenciais para quem somos.

 

Razão e relacionalidade

A razão é o que nos permite ver todos os tipos de estruturas, padrões entre conceitos, comportamentos, declarações, pessoas, eventos e coisas. Ela nos ajuda a entender, avaliar e discernir questões como harmonia e desarmonia mundo ao nosso redor. A capacidade de raciocínio e necessária para que nossa disposição para relacionamentos nos sirva bem. E nossa tendencia inata de ver buscar a conexão adequada na comunidade pode nos ajudar a raciocinar melhor Muitas vezes, pensamos de maneira mais criativa juntos do que sozinhos. Nossas propensões à razão e ao relacionamento funcionam melhor quando servem e apoiam umas às outras.

É claro que, de acordo com os estoicos, e também com outros grupos de filósofos ao longo da história, uma das verdades fundamentais da existência é que, em última análise, tudo se conecta de certa forma com tudo mais. Todos os aspectos da vida estão interconectados de maneiras vitais e surpreendentes. Não são apenas os seres humanos que têm um impulso e uma tendência a se unir e interagir uns com os outros. As interconexões entre árvores e outras plantas sob o solo da floresta podem ser surpreendentes. Tudo no ambiente da Terra parece estar conectado em interações surpreendentes. Os animais se relacionam uns com os outros e dependem uns dos outros, bem como de seu ambiente, de diversas maneiras. Os seres humanos, no entanto, se conectam e se unem com uma complexidade e um nível de abrangência não vistos de outra forma na natureza.

Construímos casas para nossas famílias, bairros residenciais, cidades com muitos bairros e grandes cidades, estados e nações em expansão. Conectamos as diferentes nações por meio de organizações internacionais políticas, econômicas e de saúde.

Criamos empresas e outras estruturas para reunir pessoas, além de redes de amigos, parceiros e pessoas com ideias semelhantes que podem se espalhar por todo o mundo. Essa abrangência e complexidade da comunidade criada intencionalmente não são vistas em nenhum outro lugar da natureza. Nossa capacidade de raciocínio está profundamente relacionada a essa imensa variedade de relacionamentos. Na verdade, os estoicos consideravam nossa extraordinária razão não apenas como uma dádiva de Deus, mas também como um pouco da divindade plantada dentro de nós. Seu poder criativo é muito especial.

Um tipo específico de motivo e um certo nível de raciocínio permitem essa sofisticação e alcance no desejo humano de se conectar. De fato, a razão e a relacionalidade estão, elas próprias, conectadas internamente. Primeiro aprendemos a linguagem e o pensamento, como raciocinar com palavras e ideias, com nossos pais ou responsáveis adultos, com os primeiros professores e outras pessoas ao redor e, de diversas maneiras, com a complexa estrutura de instituições sociais e outros relacionamentos que alimentam nosso mundo. A própria razão, por sua vez, estrutura nossos relacionamentos por meio de crenças, atitudes, planos, promessas, normas, costumes, expectativas e leis, de modo que as relações que mantemos com outras pessoas provavelmente serão mais seguras e saudáveis para nós. Viemos ao mundo graças aos relacionamentos e aprendemos e crescemos por meio deles, tornando-nos capazes de deixar nossa marca pessoal na vida com diferentes tipos de conexão com outras pessoas.

Os relacionamentos movem o mundo. Nossa  capacidade de raciocínio nos permite descobrir como criar ótimos relacionamentos. Também nos ajuda a formar parcerias com outras pessoas para fazermos juntos coisas que nunca conseguiríamos fazer sozinhos.

 

O eu e a sociedade

Em uma época em que o egoísmo parece mais difundido do que nunca e somos todos incentivados a nos concentrar nos direitos, nas oportunidades, nas conquistas e nas recompensas materiais possíveis para o indivíduo, os estoicos nos dão bons conselhos para equilibrar nosso interesse próprio natural e saudável com preocupações sociais mais amplas. Eles reconhecem que todos chegamos ao mundo com uma forte tendência para cuidar de nossa segurança individual, saúde e florescimento. Aparentemente, somos programados para colocar o autocuidado no centro das nossas vontades e motivações. Mas os estoicos também acreditam que, quando nos damos conta de que não precisamos competir constantemente com os outros por dinheiro, poder, fama, status ou qualquer outra coisa externa para nos sentirmos realizados e felizes, quando percebemos que as outras pessoas podem ser nossas amigas e não são necessariamente inimigas ou rivais naquilo que é mais importante, podemos nos libertar de uma espécie de preocupação generalizada e nos sentir livres para contribuir positivamente com a sociedade, em vez de sermos apenas usuários egoístas e manipuladores de outras pessoas. O imperador Marco Aurélio inicia seu agora famoso diário pessoal de meditações com declarações de gratidão aos membros da família, professores e amigos que lhe proporcionaram inúmeros benefícios ao longo dos anos de crescimento e amadurecimento, bem como na idade adulta. Sua menção a esses muitos presentes de outras pessoas lembra um pouco os agradecimentos de um autor no final de um livro, que agradece a todos que o ajudaram. Porém, as meditações privadas do imperador nunca foram destinadas a ser um livro, e esses agradecimentos estão no início, e não no final de seu trabalho. É como se ele estivesse apenas se lembrando, para o próprio bem, dos inúmeros benefícios que recebeu de outras pessoas ao longo da vida e que fizesse isso para aumentar o próprio agradecimento, ou gratidão, pelos muitos presentes que recebeu de outras pessoas. Agora, suas palavras de agradecimento podem nos lembrar do que também devemos aos outros.

 Sua frase inicial é "De meu avô Vero, herdei o bom caráter e a serenidade". Em seguida, ele menciona outros dons de temperamento e percepção de seu pai, sua mãe, seu bisavô e diversos professores, mentores e assistentes ao longo do caminho, agradecendo, por fim, aos céus por sua esposa e até mesmo pelos tutores que  instruíram seus filhos. Nesse momento, ele se lembra da importância de outras pessoas na própria vida e na vida em geral. Vivemos e nos desenvolvemos em comunidade. Se ele estivesse de fato escrevendo um livro intencionalmente para nós, leitores posteriores, é quase como se estivesse aqui para nos lembrar de começar tudo o que fazemos com pensamentos positivos sobre os outros gratidão pelas coisas boas que essas pessoas trouxeram para nossa vida. Assim estaremos mais bem posicionados para fazer o mesmo por elas. Em um extenso ensaio intitulado "Sobre os Benefícios", o filósofo estoico Sêneca anos antes, descreveu os atos de ajuda que muitas vezes fazemos uns para os outros devido a uma atitude de boa vontade e os presentes que oferecemos a eles como "o principal vínculo da sociedade humana". Muito mais próximo de nossa época, o famoso apresentador de televisão infantil Fred Rogers, identificado no programa como "Mister Rogers", certa vez refletiu sobre a infância e disse que. quando menino, via coisas assustadoras no noticiário - desastres, acidentes ou cenas de guerra -, e sua mãe o confortava dizendo: "Procure quem ajuda. Você sempre encontrará pessoas que ajudam." Desde os tempos antigos até hoje, os ajudantes beneficiam a todos nós. Ao nos lembrarmos de nossos ajudantes, somos incentivados a nos tornar ajudantes de outras pessoas ao longo do caminho. Para os estoicos como Marco Aurélio e Sêneca, todos nós devemos nos inspirar nos ajudantes entre nós para nos juntarmos a eles e sermos ajudantes em todos os momentos, bons ou ruins. Além disso, outras pessoas em nossa vida já nos ajudaram a desempenhar esse papel, se as mantivermos na memória e respondermos adequadamente a seus melhores exemplos. Essa é uma expressão natural da conectividade inata com que nascemos e que trazemos conosco para o mundo como parte de nossa herança natural.  O imperador não tinha dúvidas sobre os seres humanos. Ele não pensava em todos como um benfeitor positivo. Ele identificava rapidamente a virtude, mas era igualmente realista em relação às falhas e aos vícios de muitas pessoas ao redor. Ele inicia o Livro II de suas reflexões com um conselho muito útil para si mesmo, e do qual todos nós podemos nos beneficiar, baseado nesse realismo. Ele escreve:

Acolhe a alvorada já dizendo, antecipadamente, para ti mesmo: vou topar com o indiscreto, com o ingrato, com o insolente, com o pérfido, com o invejoso, com o insociável. Todas essas qualidades negativas lhes ocorrem por conta de sua ignorância do bem e do mal. (Meditações 2.1)

 

Em seguida, ele expressa sua visão estoica de que as pessoas que certamente falarão mal dele ou o tratarão ainda são, apesar de tudo, irmãos da razão e membros de sua família dentro do esquema divino das coisas, e que os erros delas sobre o que é verdadeiramente bom e mau não podem feri-lo em sua alma ou desagradá-lo de maneira alguma. Ele não precisa e não deve reagir com irritação, raiva ou fúria a qualquer um deles.

Nessa visão geral da vida que Marco Aurélio tinha como filósofo, somos criados e destinados a trabalhar juntos, e ele está convencido de que deve fazer sua parte para facilitar isso, independentemente do que os outros possam fazer na direção oposta. Em suas reflexões matinais sobre o que ele espera encontrar ao longo do dia, Marco Aurelio usa a razão para se preparar para ter o melhor relacionamento com as pessoas que elas permitirem e, talvez, além do que elas possam esperar. Ele não viverá reativamente e fará às pessoas o que elas fizerem com ele, mas as tratará com base nos abundantes recursos positivos de seu caráter forte. Ele compreende a importância da boa razão e da relação saudável, e que o caráter moral é a raiz de qualquer comunidade sólida e vibrante.

Platão e Aristóteles por Trás de Tudo

Os estoicos apontaram com razão que toda comunidade começa com a pequena unidade original da família. Todo bebê saudável vem ao mundo precisando de amor e pronto para recebê-lo, buscando conexão, amparo e se beneficiando de tudo o que é oferecido. As afiliações, os afetos e os deveres naturais que se desenvolvem em um ambiente familiar servem para nos preparar para a vida em comunidades mais amplas. Quando temos dificuldades na pequena escala da unidade familiar, provavelmente temos em contextos comunitários mais amplos. E mais, é natural que busquemos, além de nossa família biológica ou outras circunstâncias iniciais de criação, diferentes comunidades de afiliação e reciprocidade nas quais tenhamos um senso de contribuição e pertencimento, onde somos valorizados e, por sua vez, valorizamos os outros. Não viemos ao mundo para sermos solitários. 

Nossa necessidade de pertencimento.

Há alguns anos, o Los Angeles Times fez uma reportagem sobre o motivo pelo qual as pessoas se juntam a gangues de rua, muitas vezes violentas. Os repórteres descobriram que o motivo principal não era o acesso a drogas ou dinheiro, nem a proteção física em ambientes perigosos, mas, sim, a necessidade de se sentir pertencente, uma necessidade inata e profunda que não estava sendo atendida em nenhum outro lugar da vida.

Todos precisamos nos sentir necessários. Todos queremos fazer a diferença e ser apreciados por outras pessoas por esse esforço. Quando essa necessidade é atendida de maneira positiva, surgem grandes grupos, equipes, organizações e comunidades. Quando não acontece, as pessoas podem se afastar e se juntar a qualquer gangue, clube, célula ou facção política que as aceite, por mais insalubre e até perigosamente tóxica que seja. Esse é o poder e a necessidade que temos da  relacionalidade.

Portanto, assim como nossa necessidade de relacionamento, ou comunidade, tem grande poder para o bem, ela também pode ter resultados opostos, conforme demonstrado pelo exemplo das gangues violentas. Parece haver um princípio cósmico em ação no mundo ao nosso redor, algo que podemos chamar de Princípio do Duplo Poder: praticamente qualquer coisa com poder positivo para o bem ter um poder igual e oposto para o mal; cabe a nós decidir como usá-la. Por exemplo a tecnologia tem um grande poder para o bem, como é utilizada nos negócios na medicina moderna, e um grande poder para o mal, como se vê no armamento moderno e como é mal utilizada para outras formas de dano nas redes sociais A ciência nuclear faz um enorme bem na medicina nuclear e na energia limpa, e ameaça desastres na guerra. Da mesma forma, a razão humana pode ser usada bem ou mal, para criar ou destruir. O mesmo se pode dizer de nossa relacionalidade. Se bem utilizada, ela é o impulso por trás de todas as grandes coisas que fazemos juntos. Se mal direcionada, resulta em violência coletiva, ódio político e sectarismo prejudicial de diversas formas. Uma gangue de rua pode destruir um bairro. Um culto político pode derrubar uma nação.

Aristóteles sobre o potencial da parceria

Antes de Zenão lançar o que logo veio a ser conhecido como estoicismo, Aristóteles havia proclamado: "O homem é um animal social." Na verdade, o estoicismo teve seu início não apenas porque um homem sozinho em uma sala começou a desenvolver uma filosofia por si mesmo, mas porque Zenão visitou outros filósofos e suas escolas e, em seguida, começou a ter as próprias conversas independentes com outras pessoas para discutir ideias com elas no famoso "Pórtico Pintado", ou a colunata pública conhecida como Stoa, no movimentado mercado central de Atenas. Foi preciso que todos os amigos e companheiros de Zenão formassem uma comunidade para lançar o estoicismo no mundo. Isso é algo que as empresas modernas ainda tentam aprender. Comunidade é essencial. Parceria é poder.  É uma verdade fundamental. A comunidade é essencial para quase tudo o que você deseja fazer. Quando você tem uma ideia nova e excelente, deve começar a formar uma comunidade em torno dela se quer que ela faça a diferença no mundo. Podemos fazer muito mais juntos do que jamais conseguiríamos sozinhos.  Em seu excelente livro, conhecido como Política, Aristóteles explora a relevância dos relacionamentos para a realização humana e articula muitas dicas para esboçar uma ideia poderosa que pode ser resumida e declarada de modo bem simples. Os pontos altos da realização humana, os picos de criatividade, inovação e excelência no mundo parecem surgir desta fórmula básica: 

Pessoas em Parceria por um Propósito compartilhado.

O segredo aqui são as pessoas (no plural) em determinado tipo de relacionamento (uma parceria) guiadas por algo que têm em comum (um senso de propósito específico). Esse é o caldeirão da grandeza humana. Em um ponto de seu livro, Aristóteles pergunta o que é uma cidade. A palavra grega é, novamente, polis, um nome para uma unidade mais fundamental da comunidade na Grécia antiga e, claro, a origem de nossa palavra “política”. Ele conclui que uma cidade não é apenas uma estrutura de estradas e edifícios ou um conjunto de pessoas que vivem próximas umas das outras, mas que é, idealmente e em essência, “uma parceria para viver bem”.

Refletindo melhor, parece que essa descrição pode servir como uma análise mais ampla para qualquer forma saudável de comunidade humana: família, vilarejo, empresa, organização voluntária ou nação. Tudo deve ser visto como parcerias para viver bem. Se algum grupo ou comunidade esquecer essa ideia ou se desviar de seu caminho, as coisas começarão a dar errado. Estamos no nosso melhor e fazemos o melhor juntos quando trabalhamos de maneira útil em parceria com outras pessoas para um propósito compartilhado que será, em um nível geral, sempre o objetivo de viver bem, quaisquer que sejam nossas intenções específicas. Os estoicos parecem ser os herdeiros apropriados das visões de Aristóteles sobre comunidade, entre as muitas outras perspectivas do grande pensador que podem nos ajudar a retornar a formas mais saudáveis de ação e participação na esfera política. Os primeiros estoicos nem sempre concordavam com Aristóteles em outras coisas, nem mesmo consideravam abertamente seus pontos de vista, mas parecem ter se beneficiado de muitas de suas ideias que talvez estivessem em voga na época. E nós também podemos.  viver bem".

 

ARISTÓTELES SOBRE POLÍTICA EM NOVA YORK 

Há alguns anos, um dos autores (Tom) estava sentado em uma bela sala de conferências de um grande hotel na parte baixa de Manhattan, tomando café da manhã com um grupo de executivos de uma grande empresa global de tecnologia. No dia anterior, ele havia falado para esse grupo de diretores de informática e de tecnologia dos maiores clientes da empresa sobre a sabedoria filosófica que existe para a grandeza corporativa. As paredes de vidro do chão ao teto da sala davam vista para a Estátua da Liberdade, que brilhava sob o sol da manhã. A conversa logo refletiu a vista e se voltou para a política. Em determinado momento, Tom citou a opinião de Aristóteles sobre como a política deve ser um empreendimento nobre sobre a melhor maneira de vivermos bem em conjunto. Toda a mesa soltou uma gargalhada espontânea, inesperada e estrondosa, e alguns dos presentes quase se engasgaram com a comida, completamente surpresos com essa declaração inesperada. Então, passado um momento de silêncio e algumas poucas exclamações, um dos executivos bem-sucedidos olhou ao redor da mesa, voltou-se para o filósofo e, lentamente, disse: "Como foi que chegamos tão longe?" De fato. Uma discussão incrível foi iniciada, sob a mira da tocha flamejante da Senhora  Liberdade.

Perspectivas platônicas

Os estoicos não costumam citar ou se referir a Aristóteles como alguém que forneceu insights para apoiar os próprios pontos de vista. Em geral, eles ficavam mais impressionados com seu professor Platão e, principalmente, com os fascinantes diálogos escritos de Platão com seu professor, Sócrates. Se fosse possível dizer que o estoicismo tem um santo padroeiro, ele seria o igualmente urbano Sócrates que andava descalço pelas ruas de Atenas, puxando conversa com amigos e desconhecidos sobre o que realmente importa na vida, analisando crenças comuns e desfazendo as ilusões que afastam as pessoas do que realmente importa. Em determinado momento em seus escritos, Platão representa Sócrates andando por aí e basicamente gritando para as pessoas algo como "Homem de Atenas! Você é um cidadão da maior cidade da história do mundo. Por que parece que você só se preocupa com dinheiro e fama? Você nunca dá atenção ao estado da própria alma". Como se vê, ele não tinha nenhum problema real com dinheiro ou fama. mas se preocupava com as pessoas que buscavam coisas externas sem antes construir uma base interna adequada na própria alma. A visão dele parecia ser de que, se você não fizer bem as coisas internas, também não fará bem as externas, qualquer coisa no mundo que você buscar e conseguir alcançar sem sabedoria interior pode se tornar apenas um novo problema ou um fardo, e não o prazer esperado. Acontece que o tipo de comunidade considerada importante por Platão, Aristóteles e os estoicos é frequentemente ameaçada por pessoas que tendem a se comportar como o proverbial "touro em uma loja de porcelana". Esses indivíduos com cabeça de touro agem com base em falsas crenças e emoções pouco saudáveis, jogando seu peso para todos os lados e atrapalhando parcerias promissoras com versões de negatividade e danos que muitas vezes não sabem que carregam consigo aonde quer que vão. 

Compreendendo como é importante para todos nós nos livrarmos dessa bagagem interior destrutiva, Sócrates pediu que seus colegas atenienses criassem o hábito de se envolver no trabalho de conhecimento de um autoexame implacável, dizendo a famosa frase: "A vida não examinada não vale a pena ser vivida." Ele insistia para que seus companheiros examinassem suas crenças, seus valores e suas atitudes e, além disso, que se engajassem nessa reflexão de maneira honesta e frequente. É claro que, em resposta, eles insistiam para que ele bebesse veneno e morresse. Portanto, a recomendação que ele repetia com frequência não era muito popular na época. E ele também não era, mas estava certo. Embora aparentemente fosse visto por muitos como um incômodo para a cidade e tenha sido executado por decisão do povo, o curso da história humana prova que ele era profundamente sábio sobre a importância vital da tarefa de autorreflexão que recomendava a seus concidadãos. Almas boas criam sociedades boas. E criar almas boas dá trabalho.

Na República de Platão, Sócrates retrata uma comunidade política em que todos têm um papel adequado e fazem sua parte em harmonia com os demais, considerando todos os concidadãos como membros de uma grande família. Em seguida, ele acrescenta que os líderes de qualquer comunidade ou governo ideal devem ser filósofos, pessoas que, no pensamento estoico posterior, podem ser bem descritas como aquelas mais bem treinadas para entender e usar corretamente tanto a razão quanto a relacionalidade.

 

Platão descreve Sócrates dizendo a seu amigo e parceiro de conversa Glauco: "A menos que as comunidades tenham filósofos como reis ou que as pessoas que atualmente são chamadas de reis e governantes pratiquem a filosofia com bastante integridade [ ... ] não haverá fim para os problemas políticos, meu caro Glauco, ou para os problemas humanos em geral." Glauco imediatamente prediz uma má recepção para essa ideia de reis filósofos e brinca dizendo que qualquer pessoa que ouvisse isso começaria a jogar coisas em Sócrates em sinal de indignação. E, infelizmente, ele estava certo, apesar da sabedoria que Sócrates tinha em discernir o que seria necessário para alguém realmente liderar bem outras pessoas. 

Virtudes políticas e comunitárias

As muitas virtudes ou formas de excelência humana discutidas com destaque por Platão e Aristóteles, e mais tarde afirmadas por muitos outros filósofos na tradição ocidental que eles lançaram, qualidades ideais como sabedoria prática, justiça, coragem e autocontrole, parecem ser cruciais para o estabelecimento e a manutenção de comunidades saudáveis - para o empreendimento de viver bem juntos. Seguindo seus predecessores filosóficos, os estoicos passaram a nomear e discutir a importância de muitas outras qualidades de emoção, atitude e caráter que também são necessárias para a convivência harmoniosa em qualquer for- mato de sociedade. Eles mencionam coisas como benevolência, gratidão, perdão, aceitação, paciência, honestidade, discrição, modéstia, afeto, cortesia, tolerância, dignidade, diligência, consideração, bondade, compaixão, ajuda, simpatia, misericórdia e muitas outras características positivas de que precisamos para cultivar relacionamentos prósperos com familiares, amigos e colegas, bem como para um espírito comunitário positivo em geral. É uma lista que nos serviria muito bem para ser usada como modelo e teste para a seleção de líderes comunitários e representantes políticos em todos os níveis. A ausência dessas virtudes é sempre um problema, e não apenas para aqueles que não as possuem, mas para suas comunidades. Tudo isso remonta a Platão e a seu professor Sócrates: Se não fizermos o trabalho sábio de usar nossa capacidade de raciocínio para uma autoanálise regular e um autodesenvolvimento adequado das virtudes em nossa própria alma, nosso coração e nossa mente, nunca poderemos ter os melhores relacionamentos com outras pessoas ou o tipo de vida em comunidade em que, sozinhos, podemos nos sentir melhor, fazer o melhor e ser o melhor. O aspecto interno é a única base adequada para o externo. As crenças que temos, as atitudes que adotamos e as emoções que sentimos determinarão a forma como agimos no mundo e se estamos construindo ou corroendo a comunidade à medida que avançamos ao longo dos dias e dos anos.

 

Círculos Comunitários e de Assistência 

Uma das ideias mais inovadoras e de grande utilidade sobre a comunidade positiva e nossa vida política como um todo vem de um filósofo estoico romano do século II, relativamente desconhecido, chamado Hiérocles. Não sabemos muito sobre a vida dele, mas algumas de suas ideias nos foram transmitidas por meio de citações e menções que outros fizeram de seu trabalho nos próprios documentos que sobreviveram aos séculos. Sua ideia mais útil sobre comunidade pode ser explicada de maneira muito simples. É uma imagem de nossa vida à medida que a vivemos em diferentes níveis e, como um mapa das diversas comunidades ao nosso redor, pode ser explicada ou articulada de muitas maneiras. Embora nos atenhamos aos principais conceitos do próprio Hiérocles, ficaremos à vontade para expor sua ideia principal da maneira mais adequada à nossa época. 

Os anéis em nossa vida

Imagine que sua vida acontece em meio a um conjunto de círculos concêntricos invisíveis, retratados como faixas de cores contrastantes em um alvo de arco e flecha tradicional, com círculos ou faixas circulares amplas que podem ser mapeadas ao seu redor como o ponto de partida, localizado precisamente no centro do alvo. O círculo mais interno da vida é simplesmente sua própria alma, ou seja, seu coração e sua mente.  O primeiro trabalho que você tem na vida é, como Sócrates sugeriu, cultivar e administrar adequadamente os próprios pensamentos e sentimentos de maneira saudável - suas crenças, atitudes e várias disposições - e realizar bem essa atividade interna. Uma mente saudável ajuda a criar um corpo saudável, e o corpo retribui o favor e apoia a clareza e as atividades da mente. Esse círculo interno é onde tudo começa. Ao fazer bem o trabalho interno, você pode contribuir de maneira positiva e saudável com o próximo círculo, que envolve sua casa e os membros da família mais próximos. Como diziam alguns dos antigos, se você se cuidar bem, poderá cuidar melhor de sua casa ou, pelo menos, contribuir com a parte que lhe cabe em qualquer fase da vida nesse contexto. Pessoas boas formam boas famílias.  Talvez o próximo círculo possa ser entendido como seus amigos e vizinhos, e talvez os colegas de universidade, caso você esteja na universidade, ou seus colegas de trabalho, caso esteja em um estágio mais avançado da vida. Hiérocles não deixa totalmente claro se esses círculos devem ser distinguidos e definidos com base na proximidade física, na intimidade do conhecimento ou na atividade compartilhada, ou por alguma outra medida intimamente relacionada a essas, como tempo de convivência ou conhecimento mútuo.

Mas, extrapolando com naturalidade para além dos bons amigos que você vê com frequência, talvez até diariamente, e talvez também seus vizinhos próximos e colegas de trabalho, o próximo círculo provavelmente será sua cidade ou município, depois seu estado, sua região geográfica mais ampla, sua nação e, por fim, o mundo.

É claro que você pode desenhar os círculos de maneira especificamente cívica e, então, elaborar outro conjunto paralelo relacionado ao trabalho, em que seu escritório particular seja um círculo fechado e os círculos se estendam para seu setor, em nível regional, nacional ou global. Em última análise, Hiérocles gostaria que você enxergasse o panorama geral do contexto de sua comunidade em todos os níveis e de todas as formas. Estamos todos posicionados em círculos dentro de círculos, e todos eles devem ser importantes para o modo como pensamos sobre nossa vida e nossas ações no mundo. O contexto importa. 

A ideia por trás dos círculos concêntricos começa com o que poderíamos chamar de "localismo contributivo". Nossa primeira tarefa é contribuir com o que pudermos para tornar nossos círculos locais mais próximos tão bons, saudáveis LEMERE-SE e harmoniosos quanto possível. Em seguida, é procurar contribuir com o que pudermos para tornar cada círculo maior melhor ainda, até onde nossos esforços permitirem.

Um coração e uma mente bons contribuem para uma família boa, que contribui para criar uma vizinhança melhor, que, então, se torna parte de uma cidade melhor, e assim por diante. Nosso dever mais imediato é prestar atenção ao que é necessário para tornar nossos círculos mais próximos melhores, mais saudáveis e fortes, de modo que possam contribuir positivamente para cada um de nossos círculos externos. Quando operamos em qualquer um desses círculos mais distantes, nosso trabalho é ajudar a garantir que os círculos externos se estendam de volta e apoiem os círculos internos mais saudáveis para nós e para outras pessoas.

Os deveres e os trabalhos de outras pessoas que vivem e trabalham no que consideramos nossos círculos externos são, portanto, os mesmos que nossas obrigações comuns: trabalhar bem dentro das próprias áreas concêntricas de responsabilidade, começando com os próprios corações e mentes, e contribuir para os círculos externos de modo a apoiar os círculos internos de outras pessoas e também os próprios. É uma imagem e tanto. Hiérocles não vai tão longe em suas elaborações do ponto de vista básico, mas sua lógica interna permite que possamos e devamos pensar em todas essas implicações em nossa época amplamente interconectada e interdependente. Precisamos cuidar de cada círculo de maneira positiva, na medida do possível.

 

Tirando o máximo de nossos círculos

Hierócles nos oferece um retrato de como trabalhar bem onde estar dos contextos mais amplos que nos cercam e nos apoiam. E uma representação das diversas comunidades em que vivemos e que podem afetar a maneira como prosperamos juntos.

Surge um problema comum na vida que também pode ser perfeitamente diagnosticado por essa imagem de círculos. Em um esforço equivocado para apoiar e fortalecer um ou mais de seus círculos internos, no nível familiar, de vizinhança ou de vilarejo, ou até mesmo em uma comunidade política de pessoas com a mesma opinião, embora dispersas, muitas pessoas se tornam divisivas e tribalistas de uma forma muito contraditória. Elas começam a pensar que tudo se trata de "nós contra eles". Quando você se deixa levar por essa mentalidade, é você e os seus lutando contra o mundo. E é sempre uma receita para problemas.

Alguns dos estoicos têm uma imagem vívida desse tribalismo divisivo. Marco Aurélio foi um imperador que não governou apenas do palácio, mas também acampou nas piores zonas de guerra para liderar na linha de frente e dar uma mãozinha. Muitas vezes, ele viu de perto os horrores do combate e suas consequências, incluindo a visão perturbadora de partes do corpo decepadas deixadas no campo de batalha. Em seus escritos, ele compara qualquer pessoa ou grupo que se separa do restante da humanidade de maneira egoísta, defensiva ou adversária a esses membros decepados, que, é claro, rapidamente definham e morrem separados do corpo ao qual pertencem por direito, já que o próprio corpo é gravemente ferido e, muitas vezes, mortalmente devido à sua remoção. 

É uma metáfora para o individualismo antagônico e o espírito partidário agressivo que faz com que as pessoas se afastem de seus semelhantes, passando a considerar estranhos e inimigos. Essa atitude e o consequente comportamento que tanto vemos ao nosso redor atualmente destroem qualquer unidade mais ampla e tornam a comunidade saudável cada vez mais difícil ou impossível. Ao buscar preservar, proteger e fortalecer seus círculos íntimos, as pessoas com esse espírito divisivo ironicamente enfraquecem os grupos que desejam ajudar, bem como o contexto mais amplo de que precisam para prosperar.

Para os estoicos, nossa relacionalidade é muito importante, assim como nossa razão. Estamos aqui para cooperar e estabelecer parcerias positivas uns com os outros. Quando nos isolamos da comunidade humana mais ampla, todos sofrem.

Hiérocles oferece outra imagem interessante relacionada a esses círculos concêntricos invisíveis que nos rodeiam e mapeiam nossa vida. Ele sugeriu que a perspectiva moral ou ética é estender a mão para abraçar os círculos mais amplos e puxá-los para dentro, de forma imaginária, para algo que pelo menos se aproxime do nível de cuidado e afeto que devemos e normalmente demonstramos a outras pessoas em nossos círculos mais próximos. Perto ou longe, somos todos membros da família humana, com uma centelha de razão na alma semelhante à divina, um pedacinho da divindade dentro de nós. Somos todos primos do espírito. E devemos buscar respeitar e honrar os membros dessa família mais ampla, da maneira como pudermos, onde quer que estejam e por mais diferentes que possam parecer de nós. Caso contrário, nossa unidade vital e maior será quebrada e não conseguiremos prosperar como gostaríamos ou deveríamos.

 

Os Quatro Fundamentos

Há uma perspectiva que perpassa grande parte da filosofia antiga e é compartilhada de diversas maneiras, pelo menos implicitamente, pelos estoicos. Ela pode ser descrita da seguinte forma: desde o momento em que acorda pela manhã até a hora em que vai dormir à noite, você se depara com o mundo em quatro dimensões diferentes, cada uma delas com um objetivo ou uma meta ideal. Podemos chamá-las de "As Quatro Dimensões da Experiência" e seus objetivos de "Os Quatro Fundamentos da Grandeza". São a base para a excelência em nossa vida e em nossos relacionamentos. Comunidades saudáveis exigem que respeitemos e nutramos:

A Dimensão Intelectual que visa a Verdade

A Dimensão Estética que visa a Beleza 

A Dimensão Moral que visa a Bondade 

A Dimensão Espiritual que visa a Unidade 

Precisamos de Verdade, Beleza, Bondade e Unidade em nossa vida, da mesma forma como precisamos de ar, comida e água. Sem essas coisas, não podemos florescer como indivíduos ou em comunidade com outras pessoas. Quando Hiérocles fala sobre puxar os círculos externos de nossa vida para dentro, ele pode ser interpretado como se estivesse insinuando que devemos pensar nas pessoas, sentir em relação a elas e agir de modo a tratá-las - em nossa família, na vizinhança, em todo o país ou mesmo em partes remotas do mundo - de acordo com esses quatro ideais, conhecidos como transcendentais, já que a importância deles transcende qualquer circunstância específica e, em princípio, deve ser aplicada a todos.

De fato, a maneira como empregamos e aplicamos cada um desses quatro ideais deve ser determinada pelo respeito aos outros três. Há pessoas que dizem a verdade de maneira feia e violando o que é necessário para a bondade, tornando quase impossível qualquer forma de unidade saudável. O primeiro escritor cristão conhecido como o Apóstolo Paulo tinha uma frase poderosa: "falar a verdade em amor". Para uma mente iluminada, tudo deveria ser, de certa forma, responsável pelo amor. O amor é simplesmente estar comprometido com outras pessoas em termos intelectuais, estéticos, morais e espirituais, buscando honrá-las com a Verdade, a Beleza, a Bondade e a Unidade de todas as formas possíveis. O resultado pode ser uma comunidade harmoniosa.

 

As exigências do amor

 

O filósofo do século XX, Bertrand Russell, certa vez refletiu as ideias estoicas sobre tudo isso de uma forma moderna, em uma entrevista à BBC em 1959:

O amor é sábio, o ódio é tolo. Neste mundo tão interconectado, precisamos aprender a tolerar uns aos outros. Precisamos aprender a suportar o fato de que algumas pessoas dizem coisas de que não gostamos. Só poderemos viver juntos se aprendermos a caridade e a tolerância, que são essenciais para a continuidade da vida humana neste planeta. 

Algumas pessoas ficam surpresas quando ouvem pela primeira vez que os estoicos falavam sobre o amor e o valorizavam. Um equívoco comum sobre o estoicismo é que se trata de uma visão completamente antiemocional que busca nos libertar de qualquer envolvimento que possa resultar em uma vulnerabilidade pessoal. As pessoas com conhecimento apenas superficial sobre os estoicos parecem pensar que eles valorizavam o bem e o que era certo, mas raramente associam seu pensamento ao amor. No entanto, eles valorizavam a emoção positiva, porém consideravam o amor mais do que uma emoção e um compromisso firme da vontade com o bem das outras pessoas e seu bem-estar. Marco Aurélio escreve o seguinte: 

A alegria do ser humano consiste em fazer o que é característico do ser humano. Característicos do ser humano são a benevolência no trato com aqueles que são de sua espécie [ ... ] o discernimento no que toca às ideias dignas de crédito e a observação da natureza do universo e dos acontecimentos que são determinados por ela. (8.26) 

Ele também contempla a importância relacionada à unidade, no nível fundamental da conexão humana possibilitada pelo amor:  Como és uma parte que ajuda a tornar um sistema social completo, faz toda ação tua ser plenamente integrada da vida em sociedade. Assim, qualquer ação tua que não tenha referência imediata ou remotamente ao fim social produz em tua vida uma ruptura violenta, impedindo que seja íntegra, e é de caráter sedicioso, como em uma assembleia popular, quando alguém age isoladamente e se distancia e se separa do consenso geral. (9.23)  Em uma carta, o conselheiro político estoico Sêneca esclarece algo sobre a importância da unidade que somente o amor é capaz de alcançar e manter. Ele escreve:

Posso estabelecer para a humanidade uma regra simples sobre nossos deveres nas relações humanas: tudo o que abrange o divino e o humano é uma só coisa - somos partes de um mesmo grande corpo. A natureza nos fez ligados uns aos  outros, pois nos criou a partir da mesma origem e para o mesmo fim. Ela plantou em nós o afeto mútuo e nos inclinou à amizade. Estabeleceu a equidade e a justiça [...] Nossas relações uns com os outros são como um arco de pedra – que desabaria se as pedras não se apoiassem mutuamente, e que se mantém firma justamente por esse apoio recíproco. (Cartas, 95.51-52)

 

Afeto, amizade, equidade, justiça e amparo são mencionados em apenas uma passagem como importantes para a saúde e a força da comunidade humana. 

O IMPERADOR SOBRE A COMUNIDADE

Ao refletir sobre o fato de que vivemos em um Universo inter-relacionado e interconectado, Marco Aurélio escreveu o seguinte em suas Meditações:

Por estar ligado às outras partes que são como eu, não buscarei minha vantagem às custas delas, mas me empenharei em conhecer qual é nosso bem comum e farei todo esforço para promovê-lo - e para convencer os outros a não agir contra ele. Se eu for bem-sucedido nisso, minha vida há de fluir com serenidade, como se espera daquele cidadão zeloso que sempre cuida dos outros e acolhe com alegria qualquer tarefa que sua comunidade lhe confia. (10.6)

A natureza universal constituiu os animais racionais para a assistência mútua em consonância com os méritos, mas não para se prejudicar mutuamente. (9.1)

Mas, o que quer que eu faça - sozinho ou com outra pessoa - meu único objetivo será este, e apenas este: beneficiar e viver em harmonia com a comunidade. (7.5) 

A primeira lei do ser humano, portanto, é seu senso de parentesco. (7.55) Agi de forma altruísta? Se o fiz então fui beneficiado. Agarre-se a esse pensamento - e continue com o bom trabalho. (11.4)

Prepara-te para a ação com dois pensamentos: primeiro, faz apenas aquilo que tua razão legisladora e governante te disser ser para o bem dos outros; segundo, não hesites em mudar de rumo se alguém for capaz de te mostrar onde estás errado ou te indicar um caminho melhor. Mas deixa-te convencer apenas por argumentos fundamentados na justiça e no bem comum - nunca por aquilo que agrada ao teu gosto por prazer ou popularidade. (4.12)

Um galho cortado de outro galho está, por necessidade, separado da árvore inteira. Da mesma forma, um homem que se afasta de outro homem se separa do restante da humanidade. Mas, enquanto um galho é cortado por alguém, o homem se aparta dos outros por sua própria hostilidade ou negligência - sem perceber que, ao fazer isso, está também se desligando de toda a sociedade civilizada. (11.8)

 

Cidadãos do mundo

Em outra breve passagem de seu diário, Marco Aurélio escreve para si mesmo este lembrete: "Esteja você numa cidade ou no deserto, es um cidadão do mundo (Meditações 10.15) Esse era um conceito importante no pensamento estoico. Come Hiérocles nos mostrou, os círculos de nossa vida vão muito além da vizinhança das nações, e se estendem por todo o globo. Se algum dia descobrirmos que outros seres racionais vivem em outros planetas, esses círculos também se estenderão a eles e a esses locais distantes. Somos cidadãos do mundo e do Universo, em comunidade com todas as criaturas racionais que possam existir além de nossa espécie precisa e, de preferência, em qualquer parte de um vasto multiverso que contenha ou esteja separado de nossa vizinhança cósmica.

Esse conceito de amplo pertencimento, ou de cidadania cósmica, uma visão frequentemente conhecida como cosmopolitismo, é atribuído a Diógenes de Sinope, outro personagem amado pelos estoicos, também chamado de "Diógenes, o Cínico", porque se dizia que ele parecia e vivia como um cão vadio (em grego, kunikos ou "semelhante a um cão"). Conta-se que ele teria dito sobre si mesmo: "Sou um cidadão do mundo." Mas a ideia de cidadania em uma comunidade mais ampla possível parece ter sido anterior a Diógenes e é atribuída pelos próprios estoicos a Sócrates. Em Discursos, Epicteto comenta:  Se for verdade o que dizem os filósofos sobre o parentesco entre Deus e os homens, que outro caminho nos resta senão o que tomou Sócrates, quando, ao ser perguntado de que pátria era, respondeu que jamais se deveria dizer "Sou ateniense“ ou "Sou coríntio", mas sim, "Sou cidadão do universo?" (I.9) 

Apesar dessa citação de Sócrates por Epicteto, a maioria dos estoicos parece ter buscado em Diógenes sua inspiração cosmopolita. Em muitos aspectos, Diógenes era um estranho exemplo a ser seguido, pois era um cínico radical, muitas vezes parecendo sair de seu caminho para ostentar um comportamento que não era socialmente aceito em sua época ou em qualquer época. Ele era filiado a uma escola ou tradição filosófica independente do estoicismo, que valorizava a simplicidade e a pobreza acima de tudo, incentivando a exclusão de coisas desnecessárias e a rejeição de todas as convenções sociais artificiais.

Conta-se que Diógenes vivia dentro de um barril, frequentemente era visto andando nu e teria doado todos os seus pertences, exceto uma tigela de barro para beber água. Dizem que um dia ele viu um escravo bebendo água com as mãos em forma de concha e, então, ofereceu sua tigela. Ele disse: "Aquele que tem mais é o que está mais satisfeito com o mínimo." Mas ele não era, de modo algum, uma pessoa que aceitava e buscava construir uma comunidade. Em um excelente texto acadêmico, The Stoic Idea of the City, o filósofo Malcolm Schofield diz que, quando Diógenes se caracterizou como cidadão do mundo, ou melhor, do cosmos, «ele deu a entender que não se sentia em casa em nenhum outro lugar - exceto no próprio Universo". E Schofield provavelmente está certo nessa interpretação. Quando Diógenes disse que era um cidadão do mais amplo contexto que conhecia, provavelmente era porque não se sentia inserido em nenhum círculo menor da comunidade. A maioria dos estoicos, no entanto, teria adotado a visão do cosmopolitismo por um motivo muito diferente: eles tinham o mais amplo senso de cidadania possível justamente porque, ao contrário de Diógenes, sentiam-se à vontade em todos os círculos da humanidade, em todos os níveis, e queriam endossar uma visão de mundo que estendesse seu status de cidadãos da maneira mais ampla possível. 

Diógenes pode não ter tido um senso de cidadania local por não se encaixar, mas, principalmente, porque desprezava os costumes locais e não queria se encaixar. Para ele, sua vizinhança ou sua cidade não contribuía para o que ele valorizava, nem o beneficiava em particular. Porém, a visão estoica padrão parece ser muito diferente. Sentimos a afinidade da comunidade com um lugar ou um grupo de pessoas não primariamente porque pensamos que esse lugar ou esse grupo nos beneficia ou contribui para nosso crescimento pessoal, embora isso certamente aconteça. Sentimos afinidade porque consideramos esse lugar e essas pessoas uma oportunidade de contribuirmos com nossa atenção, cuidado e ação. Para nós, isso constitui um cenário no qual podemos criar, ou participar, parcerias adequadas para viver bem, na concepção de Aristóteles, ou no qual podemos ter um papel individual fundamental, como talvez se reflita na República de Platão.

Os estoicos enxergavam todas as pessoas como partes apropriadas da comunidade, apesar de sua infeliz e anômala aceitação da escravidão, uma forma de serviço e servidão que, na época, não refletia raça ou etnia, mas, sim, as vicissitudes da guerra e da conquista. No entanto, nenhum filósofo ou grupo de pensadores jamais esteve certo a respeito de tudo. Apreciamos qualquer um de seus avanços sempre que descobrem uma nova verdade ou apontam algo que deveria ser óbvio para nós, apesar de seus erros em outros aspectos. E podemos aprender com suas percepções, evitando suas falhas.

 

Algo que aprendemos com Marco Aurélio, se prestarmos bastante atenção, é que o que mais destrói as comunidades e atrapalha a política em nossa época é o fato de termos esquecido as qualidades que o imperador elogiou no início de Meditações, as características de "cortesia e serenidade de temperamento". Com esses atributos de cura, podemos fazer bastante coisa em nossos círculos da comunidade e da vida. 

AS CINCO REGRAS DO COSMOPOLITISMO 

Uma abordagem contemporânea sobre os ciclos concêntricos estoicos, a serviço de um cosmopolitismo mais amplo, poderia ser considerada um incentivo para que você: 

1. Comece de onde está.

2. Use o que tem.

3. Faça o que puder.

4. Sirva a quem puder.

5. Ame sem limites. 

Deve-se notar, também, que a maioria dos estoicos parecia considerar as mulheres colaboradoras, em termos gerais ou absolutos, iguais aos homens na formação e na composição da comunidade. Isso fica mais claro nas reflexões registradas de Musônio Rufo, o professor de Epicteto. Ele acreditava que as mulheres tinham, obviamente, a mesma capacidade de raciocínio e, portanto, de sabedoria e virtude, que os homens e que, por isso, a educação deveria ser oferecida igualmente a ambos os sexos. Embora essa percepção esteja devidamente difundida atualmente, apesar de sua lamentável falta de aceitação universal, foi uma ideia bastante revolucionária na Grécia e na Roma antigas. Nisso, como em outras coisas, os estoicos muitas vezes lideraram o caminho.

307 –

O que uma pessoa sábia precisa saber e entender compõe uma lista variada: os objetivos e os valores mais importantes da vida - o objetivo final, se houver um; que meios permitirão alcançar esses objetivos sem um custo muito alto; quais riscos ameaçam a realização desses objetivos; como reconhecer e evitar ou minimizar esses riscos; quais são os diferentes tipos de seres humanos com relação a suas ações e motivações (já que isso apresenta riscos ou oportunidades); o que não é possível ou viável alcançar (ou evitar); como saber o que é apropriado e quando; como saber quando certos objetivos são suficientemente conquistados quais limitações são inevitáveis e como aceitá-las; como melhorar a si mesmo e seus relacionamentos com os outros ou com a sociedade; saber qual é o verdadeiro e não aparente valor de diversas coisas; quando adotar uma visão de longo prazo; reconhecer a variedade e a obstinação dos fatos, das instituições e da natureza humana; entender quais são os verdadeiros motivos de cada pessoa como lidar com as principais tragédias e dilemas da vida e, ainda, com as principais coisas boas. (Nozick, The Examined Life, p. 269)

ROBERT NOZICK (1938 – 2002) Filósofo e professor estadunidense

ENSINAMENTOS DA FILOSOFIA ESTOICA

SABEDORIA PRÁTICA (Phronimos): “O conhecimento de quais coisas são boas e ruins, e nenhuma delas”.

DIÔGENES LAÊRTIOS (séc. III). Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. – Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.


308 - 

AUTOCONTROLE: é a sabedoria sobre assuntos que exigem escolhas sobre as quais desejos, prazeres, etc. valem a pena ser buscados.

CORAGEM: é a sabedoria sobre quais coisas devem ser temidas ou suportadas.

JUSTIÇA: é sabedoria sobre as distribuições merecidas.

SABEDORIA PRÁTICA: parece ter uma espécie de primazia entre as virtudes cardeais. Sem a sabedoria para saber o que é justo, moderado e corajoso, a vida ética seria em grande parte cega.

MORRIS, Tom. Estoicismo para leigos. - 1.ed. - Rio de Janeiro : Alta Books, 2025.


309 - “As virtudes são os pontos fortes da mente e do coração que melhoram sua vida, elevam seu nível e contribuem para sua felicidade ou seu bem-estar em meio a todos os desafios, as oportunidades e até mesmo as dificuldades da vida.”

311 - O futuro é suficientemente elusivo para não se adaptar às nossas preocupações.

311 - A preocupação presume que sabe mais do que pode.

316 - Outra crença irracional comum que leva a problemas é a ideia de que devemos ser perfeitos em tudo que fazemos. Essa ideia não é realista e causa uma angústia desnecessária nas pessoas.


316 - Soldados, bombeiros e outros socorristas treinam até que a virtude se torne um hábito e a coragem uma forma de estar no mundo. Quando somos treinados por uma boa filosofia, a sabedoria se instala em nós, quase dentro de nosso DNA, e não precisamos pensar muito em como agir em uma situação desafiadora, pois as ações corretas surgirão do pensamento e do sentimentos corretos que resultaram de nosso treinamento. Isso produzirá a resiliência emocional resultante da completa assimilação e absorção dos ensinamentos estoicos.


317 - A visualização envolve a imaginação. E a imaginação parece ter um poder sobre a emoção, a atitude e a ação que o intelecto sozinho não tem. Portanto, envolver a imaginação, assim como o intelecto, pode ajudar muito nesse treinamento preparatório. É um exercício que vale a pena fazer regularmente.

331 - O estoicismo se preocupava essencialmente com duas coisas - a natureza última da realidade e a natureza da vida boa - que a maioria dos filósofos acreditava não fazer parte de suas funções.

365 - Resultados positivos

Embora alguns puristas possam se opor a certas facetas do estoicismo moderno, não se pode negar que as mensagens centrais e os "conselhos de vida" sugeridos são extremamente positivos.

Coloque a sabedoria e a virtude em primeiro lugar.

Controle suas emoções.

Seja autodisciplinado.

Seja corajoso.

Seja justo.

Aja em prol do bem comum.

Aguente firme.

Não se preocupe com seus problemas.

Não se preocupe com as coisas pequenas.

Concentre-se mais no que você pode controlar.

Trate as adversidades como oportunidades.

Seja razoável.

Seja consciente.

Busque perspectiva.

Tenha uma visão de longo prazo.

Tenha uma vida planejada.

Seja filosófico.

Deixe de lado os apegos prejudiciais à saúde.

Seja invencível.

Viva sempre consciente, como nos lembra Gandalf, de que você é "apenas uma pequena pessoa em um mundo imenso" e parte de algo muito maior. 

Essas são as principais e duradouras mensagens dos estoicismos antigo e moderno.

E são exatamente o que nossa alma doente e estressada precisa em um mundo cada vez mais louco. Imagine, por um momento, que todas as pessoas com mais de 10 ou 12 anos se tornassem, repentina e completamente, um estoico clássico ou moderno pelo resto de suas vidas em termos de emoções, atitudes, ações e crenças. Sem dúvida, o mundo melhoraria radicalmente em um instante e para o bem de todos. Seria um tipo de alquimia perfeita e maravilhosa, uma transformação com a qual, de outra forma, as pessoas só poderiam sonhar. E, com a mesma certeza, na medida em que alguém adota esses conselhos de maneira individual, a melhoria acontece.

 

MORRIS, Tom. Estoicismo para leigos. - 1.ed. - Rio de Janeiro : Alta Books, 2025.p.365


366 - Ênfase na sabedoria e na virtude; a indiferença à fama, à riqueza e à maioria dos outros valores convencionais;  a força inabalável diante das mudanças do destino; a autoanálise constante e o questionamento destemido das falsidades sociais também estão no cerne do verdadeira estoicismo.

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