FILOSOFIA PARA QUEM NÃO É FILÓSOFO - PETER GIBSON - anotações de leitura
GIBSON, Peter. Filosofia para quem não é filósofo. - São Paulo: Universo dos Livros, 2021.
"Nossas vidas dependem do que sabemos". p.71
"Se você acredita em algo, mas está enganado, então não sabe". p.71
"A verdade é o mínimo exigido para o conhecimento". p.71
A
NATUREZA DA MENTE
Para os filósofos, a mente é interessante por causa de seu papel essencial no conhecimento e na compreensão, seu papel ativo nas escolhas e na moralidade, e a relação entre as mentes humanas e a linguagem que elas empregam. Precisamos de uma descrição das funções da mente e suas capacidades, e uma compreensão da relação entre a mente e o cérebro, de um modo que se encaixe com as teorias mais amplas sobre o mundo
O que é uma mente?
É É uma entidade distinta ou um processo?
É o mesmo que a consciência, ou é muito
mais extensa?
E totalmente separada do corpo, apesar
de envolvida nele?
Ela se estende para o mundo, na
informação que guardamos nos celulares, por exemplo?
Ela é apenas uma coleção de minúsculas
atividades físicas?
Ela controla o corpo ou simplesmente
reage a ele?
§ Somos especialistas em nossas próprias mentes, ou estamos envolvidos demais para enxergar o que está realmente acontecendo?
Algumas
das grandes questões sobre o status do ser humano se escondem por trás desses
enigmas. Se não formos diferentes, em princípio, dos outros mamíferos, então
nossa descrição da mente humana não será muito diferente da descrição que
fazemos da mente de um rato de laboratório. Entretanto, se tivermos uma visão
mais elevada de nós mesmos, como acreditar que possuímos almas imortais ou que
temos muito mais liberdade de escolha do que os ratos, ou como raciocinantes
que podem compreender a verdade, a lógica, a matemática e os segredos da
natureza, então nosso relato da mente humana deve tornar essas coisas
possíveis.
Podemos
tentar perguntar para que serve uma mente. Mentes precisam de cérebros, que só
são encontrados em organismos que navegam em seus ambientes, então esse é um
bom ponto de partida. Se uma criatura móvel e maior não consegue navegar, não
durará muito em um mundo perigoso. É necessário ser multitarefas, em alta
velocidade.
Todas
essas atividades têm uma curiosa unidade, e a mente de alguma forma produz esse
todo integrado. Animais visivelmente têm mentes em graus variados, mas nós não
temos certeza do quanto eles estão cientes ou atenciosos. O único modo pelo
qual podemos compreender a mente dos animais é procurando as melhores
explicações para o comportamento deles, e as complexidades da vida animal vista
nas filmagens da vida selvagem parecem impossíveis sem planejamento,
comparações e mapas mentais do local. A consciência pode não ser essencial para
conectar atividades como fazer ninhos, perseguir e montar armadilhas argutas,
mas provavelmente ajuda muito.
Pensamentos e experiências
Se
isso resume o papel básico de uma mente, do que as mentes precisam para
realizar essa tarefa? Os filósofos têm se focado em dois aspectos. Precisamos
vivenciar o mundo de forma a reagir a ele. Você retira rapidamente seu pé se
pisa em algo afiado. O sentimento de dor cumpre o seu papel, sem nenhuma
necessidade de raciocínio ou crenças. A palavra qualia
(qualidades) é utilizada para essas experiências sensoriais imediatas, e
refere-se à qualidade dolorosa de uma dor (ou à tonalidade de uma cor, como a
vermelhidão do vermelho) - que precede qualquer pensamento a respeito do que
fazer. Por outro lado, sua mente pode ter muitas crenças gerais que não
envolvem nenhuma experiência em particular. Elas são estados mentais que versam
"sobre" alguma coisa, e a palavra intencionalidade é
usada para essa capacidade de pensar sobre as coisas. Crenças dizem respeito às
coisas, no sentido de que o sol não pode se referir ou ser sobre a lua.
As mentes têm experiências cruas (qualia) e pensamentos com conteúdo (intencionalidade), e as duas atividades implicam que a mente representa o mundo exterior.
Nós
humanos, também temos o fenômeno do pensamento de segundo nível – pensamentos a
respeito de pensamentos, como “eu quero mesmo esse pão?” ou “eu peguei a saída
errada?”
Nossa
perspectiva sobre as mentes das outras pessoas é diferente e nós até podemos
nos perguntar se as outras pessoas têm mentes. Normalmente, tomamos isso como
uma certeza, mas qual base temos para estarmos tão certos? Talvez você seja o único
consciente, e o restante de nós sejamos não conscientes (conhecidos entre os
filósofos como “zumbis”). Você pode responder que seu comportamento é explicado
pela sua mente e outras pessoas têm comportamentos semelhantes, então a
explicação para eles deve ser a mesma. Também parece importante que elas
provavelmente têm um cérebro como o seu.
É possível acreditar que você é o único
consciente e todas as outras pessoas sejam não conscientes, meros zumbis.
Nós certamente não deveríamos presumir
que temos todos uma experiência idêntica com um mesmo objeto.
Fonte:
GIBSON,
Peter. Filosofia para quem não é filósofo. - São Paulo: Universo dos Livros,
2021. p.93 - 96
DESCARTES E A MENTE
Quando Descartes considerou a mente, ele identificou vários elementos que não podiam ser físicos:
- A mente é totalmente unificada, enquanto o cérebro pode ser fatiado.
- Nós podemos duvidar se temos corpos (já que podemos estar sonhando com eles), mas não temos como duvidar de que temos mentes, já que precisamos das mentes para o próprio processo de duvidar.
"[...] avanços dramáticos na Biologia e na Neurociência (como assistir ao cérebro devorar glucose quando está se esforçando bastante) tornaram o relato físico da mente muito mais plausível". p.101
HUMANOS E PESSOAS
Um ser humano começa a existir
antes de nascer e continua sendo um ser humano mesmo após a morte. O conceito
de pessoa surgiu porque a lei precisava dessa definição para se referir à fase
de um ser humano em que ele pode ser legalmente responsável por seus atos. Para
ser culpado de um crime ou ser obrigado a cumprir um contrato, um sujeito deve
permanecer a mesma pessoa ao longo do tempo. O que importa são as
características mentais, como estar consciente e sensato, em lugar de ter um
corpo humano. Para ser uma pessoa, segundo a definição legal, não é sequer
obrigatório ser um ser humano - podem ser consideradas pessoas uma corporação
ou até mesmo uma cidade. Surgem, então, três questões essenciais:
§ O
que conta como uma "pessoa"?
§ Quando
alguém continua sendo "a mesma" pessoa?
§ Qual
é o status de um humano que não é uma pessoa?
Quais características são
necessárias para a existência de responsabilidade pessoal?
Se uma pessoa não apresentar
nenhuma desculpa para determinado ato, ela deve ter estado em pleno controle.
John Locke sugeriu que uma pessoa precisa estar consciente, racional e ser
A pessoa, por John Locke:
§
Autoconsciente
§
Capaz de fazer escolhas
§
Consciente
§
Contínua
§
Inteligente
§
Racional
autoconsciente e contínua - e
desde que seja capaz de fazer escolhas, essa visão continua sendo aceita
geralmente.
Como a pessoa permanece a
mesma é um pouco mais complicado. Pensamos em um ser humano recém-nascido e
suas possíveis variantes senis como sendo o mesmo ser humano (com o mesmo DNA).
Mas permanecer a mesma pessoa (no sentido adotado por Locke) é mais difícil,
porque os estados mentais mudam bastante, e uma pessoa na infância ou na
extrema velhice não tem quase nada em comum com a mesma pessoa em seu auge. A
solução mais fácil seria se todos tivessem um Eu que se formasse na infância e
permanecesse exatamente o mesmo, desde que o cérebro não fosse danificado.
Então, poderíamos dizer que, enquanto nossos pensamentos, humores e experiências
mudam, o nosso Eu permanece fixo, como sujeito dessas atividades. A maioria das
discussões a respeito de pessoas, portanto, concentra-se no Eu ou Ego.
O EU
Podemos perguntar se temos um Eu
em dado momento, e deixar para depois o questionamento se o seu Eu persiste ao
longo do tempo. Os primeiros budistas negavam inteiramente a existência do
Eu, mas existem bons motivos a favor dessa existência. Nossos pensamentos e
experiências não vagam aleatoriamente - eles pertencem a um sujeito. Esse
sujeito se lembra do passado e planeja para o futuro, compara e reage ao que
lhe acontece. Se ocorre um encadeamento de raciocínio, como uma demonstração
matemática, o pensador precisa continuar essa ponderação durante o processo
para manter a coesão da coisa toda. A qualquer momento, você não é uma massa de
fragmentos em movimento, porque todos os seus acontecimentos podem ser focados
em um único objetivo (como correr para pegar o trem). Alguns acontecimentos
mentais são transitórios e triviais, mas outros têm grande importância para
você, tais como suas lembranças, seus relacionamentos e suas principais
crenças.
Será que uma planta ou uma
joaninha tem um Eu? Um organismo unificado tem interesses unificados, mas nós
provavelmente não acreditamos que uma planta tenha um Eu por ela não ter
consciência. Assim, seria a consciência elemento crucial para a existência de
um Eu? A parte que unifica demonstrações matemáticas e se concentra no trem
parece precisar de consciência, mas sua mente inconsciente também faz parte de
você, então o Eu pode não ser muito preciso, e ter um Eu pode não ser esse tudo
ou nada. Mesmo que uma joaninha seja, até certo ponto, consciente, ela parece
não cumprir os outros critérios para a individualidade, o Eu próprio. É
provável que ela tenha linhas de raciocínio bem curtas, poucos planos e crenças
mínimas (embora nunca se saiba com certeza). Quanto mais complexa a vida
mental, mais parece ser necessária a existência de um ponto focal duradouro. A
linguagem, por exemplo, precisa de um único falante para uni ficar um discurso
longo.
Immanuel Kant admite que não
conseguimos detectar um Eu interior, mas que existe uma óbvia necessidade de
algo assim, algo que podemos reconhecer a priori. Não sabemos isso por
observação, mas inferimos esse fato como uma precondição para a experiência e o
raciocínio. Ele é uma presença indetectável, o que é essencial se quisermos
compreender a vida mental.
Entretanto, talvez esses
argumentos se foquem demais nos esta- dos mentais e ignorem o papel do corpo.
Internamente, você pode pensar que tem um Eu, mas outras pessoas o identificam
pelo seu rosto e seu aspecto físico. A mente é, hoje em dia, vista como algo
muito integrado ao corpo, e o pensamento tem uma forte dimensão corporal.
Portanto, talvez o seu senso de individualidade seja muito mais como a sua
imagem de seu próprio corpo - o que significa que perder uma perna realmente é
perder uma parte do seu Eu, e se você muda de gênero, torna-se uma pessoa
diferente.
Autoconsciência
A maioria dos argumentos a favor
de um Eu é baseada na introspecção - no olhar voltado para nossas próprias
mentes. Isso pode nos ajudar a compreender a nós mesmos e ainda dar um
fundamento confiável para o conhecimento. Racionalistas dizem que existem verdades
autoevidentes disponíveis na introspecção (depois de pensar um pouco), a partir
das quais podemos inferir muitas outras verdades, quando elas são combinadas
com a experiência.
Existe, contudo, um problema
óbvio em tentar enxergar seu próprio Eu por meio da introspecção: algo como um
gato tentando pegar o próprio rabo, porque não há espelhos para um indivíduo enxergar
a si mesmo.
A introspecção
tem todo tipo de limitações, tais como distinguir suas próprias emoções ou
saber se você entendeu algo. Quando se sente raiva ou urgência ao fazer algo, a
introspecção se torna impossível, portanto, esses estados não podem ser
analisados de forma direta. A pesquisa psicológica moderna também nos mostrou
que os relatos das pessoas sobre suas motivações e princípios morais são
bastante questionáveis, pois o que elas fazem de fato com frequência contradiz
o que elas dizem que buscam fazer. Relatos de acontecimentos testemunhados
recentemente também podem ser incrivelmente imprecisos. Assim, a introspecção
tem óbvias limitações, portanto deveria ser tratada com muita cautela.
Todavia,
ignorar a introspecção como fonte de conhecimento é drástico demais. Sua
consciência de sua vida mental pode ser incerta, mas é uma análise melhor do
que a de qualquer outra pessoa. Escaneamento cerebral e experimentos
psicológicos não chegariam a lugar algum sem os relatos introspectivos dos
sujeitos a respeito do raciocínio envolvido. A convicção de que suas
experiências de infância, especialmente as mais vívidas, aconteceram com você é
forte demais para ser descartada por relatos ocasionais de falibilidade mental.
Isso pode não significar que conhecemos o Eu, mas oferece muita compreensão
sobre nossa própria natureza e continuidade.
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DUVIDANDO DO EU |
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BUDISTAS |
IMMANUEL KANT |
DAVID HUME |
FRIEDRICH NIETZSCHE |
NEUROCIÊNCIA MODERNA |
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Não existe um Eu. |
Não podemos detectá-lo, apenas
inferir a existência do Eu devido à nossa experiência e nosso raciocínio. |
Não existe um Eu, apenas um ‘pacote
de acontecimentos mentais. |
Somos guiados por desejos
inconscientes e não existe nenhuma entidade fixada que constitua um “eu” ao
longo da vida. |
Não existe nenhuma estrutura
cerebral para desempenhar o papel do “Eu”, mas pensamentos de segunda ordem
podem oferecer uma base a ele. |
Um desafio mais drástico à
individualidade veio do empírico David Hume, que declarou que não conseguia
encontrar nenhum sinal de um Eu quando examinava a própria mente. Ele
encontrava apenas um emaranhado de acontecimentos mentais sem estrutura, ao
qual se referia como um "pacote". Podemos imaginar um "Eu",
mas não existe nenhuma evidência para sua existência. A neurociência oferece
alguma sustentação para essa perspectiva, já que nenhuma estrutura cerebral
conhecida desempenha o papel necessário de Eu - apesar do fato de que o
pensamento seria claramente impossível sem alguma coordenação. A presença de
pensamentos de "segunda ordem" (pensamentos a respeito de
pensamentos) pode oferecer certa base para um Eu - como a parte de você que
decide em que se focar (concentrando-se neste livro, por exemplo), ou que julga
o seu próprio comportamento.
Céticos dizem que devemos admitir
que a ideia de uma entidade fixa e imutável que constituiria você por toda a
sua vida é simplesmente falsa. Nietzsche foi ainda mais pessimista do que Hume
sobre a possibilidade de conhecermos a nós mesmos por meio da introspecção.
David Hume só conseguia
descobrir dentro de sua mente um pacote de acontecimentos mentais, em vez de um
Eu coerente.
Hume pelo menos teve uma
familiaridade rápida com o conteúdo de seu "pacote" de experiências,
mas mesmo estas são enganosas se dependerem totalmente de como as
interpretamos, e podem até ser inundadas por "estímulos" mentais
inconscientes que não compreendemos. Nietzsche sentiu-se sendo varrido pelos
poderes enterrados no fundo do interior da mente.
0 Eu em transformação
Mais influente tem sido a
afirmação de Hegel de que a introspecção não revelará o Eu, mas que nós podemos
compreender nossa natureza essencial vendo-a em relação a outras mentes. Esse
conceito foi desenvolvido por sociólogos em um rico relato do Eu como um
"construto social". Se existe um Eu fixado, de onde ele vem? Ele
parece ser fixado por nossa ascendência e DNA ("natureza") e talvez
por treinamento durante a infância ("criação"). Na vida adulta,
experimentamos influências sobre nossas emoções, opiniões e escolhas, mas a
perspectiva tradicional afirma que permanecemos os mesmos enquanto isso ocorre.
No entanto, se o Eu é um construto social, tudo isso está errado.
Hegel afirmou que poderíamos
compreender o Eu através de sua relação com outras mentes.
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MOLDANDO O EU |
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GEORG FRIEDRICH HEGEL |
KARL MARX |
EXISTENCIALISMO |
FILOSOFIA PÓS-MODERNA |
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Só podemos conhecer o Eu por
meio de nossas experiências com os outros. E Eu é um construto social. |
Nossas mentes são moldadas pela
situação política e econômica. |
Podemos refazer nosso Eu de
acordo com nossos próprios ideais. |
O Eu é o principal personagem na
narrativa em andamento de nossas vidas. |
Uma versão inicial dessa
perspectiva social veio de Karl Marx, para o qual a natureza essencial de
nossa consciência é moldada pela situação econômica e política em que nos
encontramos. Nossas mentes são moldadas por quem controla a sociedade, e a
maioria de nós se torna o que for mais conveniente à nossa posição social.
Uma abordagem mais individualista
é a do Existencialismo, que afirma que o Eu pode de fato ser moldado de
maneiras ilimitadas, mas nos insta a assumir o controle do processo, em vez de
sermos passivamente influenciados pela sociedade. Como temos pensamentos de
segunda ordem, podemos fazer e refazer o nosso Eu de acordo com nossos próprios
ideais. Uma abordagem moderna ao Eu o conecta ao nosso amor profundo pela
contação de histórias e trata o Eu como uma narrativa contínua, uma imagem de
nós mesmos que se desenvolve (quase sem pensar a respeito) conforme progredimos
pela vida. Nós temos um "eu narrativo", que é o personagem
principal em um drama que se desdobra. Na visão narrativa, nossas vidas têm
unidade e propósito, e outras pessoas desenvolvem suas próprias histórias ao
lado das nossas. Somos fixos como o personagem principal, mas transformados
pelos acontecimentos.
CONTINUIDADE DAS PESSOAS
Advogados precisam que
continuemos as mesmas pessoas, e todos nós pensamos em nós mesmos como
essencialmente iguais desde a infância até a velhice, mas como pode ser, se o
Eu está mudando constantemente e é fortemente moldado por influências sociais? Podemos
nos agarrar a algo sobre o Eu, a despeito dessa variação? Uma solução óbvia é
focarmos no corpo, que, pelo menos, segue uma trajetória ininterrupta pelo
espaço e o tempo. Se você não é o mesmo que era quando bebê, em que momento a
mudança ocorreu? Seu DNA permanece idêntico e suas fotografias são
reconhecivelmente da mesma pessoa.
Seu DNA continua igual, mesmo quando sua situação
social muda.
Nós damos muito valor à
existência corporal das pessoas, até antes ou depois de elas terem as
qualidades que fazem delas uma "pessoa". Entretanto, temos
pouquíssimo em comum com nossos Eus bebês, e não esperaríamos que alguém de
trinta anos cumprisse uma promessa que fez aos cinco anos.
Lembranças
Locke sugeriu que o que importa
não é que você acredite ser o mesmo que era aos cinco anos, mas que você se
lembre de quando tinha cinco anos. Nossos dias e anos são unificados por longas
cadeias de lembranças. Podemos vê-las como parte de uma narrativa, mas também
guardamos com carinho lembranças triviais, que são valorizadas por elas mesmas.
Locke sugeriu, ousadamente, que você permanece a mesma pessoa apenas na medida
em que consegue se lembrar dos acontecimentos, e caso tenha se esquecido
totalmente deles, eles deixam de fazer parte de você. Ele também acrescentou
que o seu corpo é parte da sua pessoa se você tiver consciência dele, de modo
que o seu mindinho é uma parte de você, mas seu cabelo talvez não seja. Assim,
você é a sua consciência, e você continua idêntico desde que faça parte dessa
consciência estendida ao longo do tempo.
Thomas Reid logo encontrou alguns
problemas nessa teoria. Segundo Locke, se você tem lembranças da infância
quando está com trinta anos, então você é a mesma pessoa que aquela criança, e
se uma pessoa idosa tem lembranças de quando tinha trinta, ela é a mesma pessoa
que aquela de trinta. Mas e se aquela pessoa idosa conseguir se lembrar de
quando tinha trinta, mas não de quando era criança? Então, esse indivíduo
simultaneamente não é o mesmo que a criança (porque se esqueceu), e é o mesmo
que a criança (porque é idêntico ao indivíduo de trinta anos, que é idêntico à
criança). Contradição. Também parece que você deixa de ser culpado por seus
crimes se você não se lembra mais de tê-los cometido - o que faz da amnésia uma
grande vantagem para os criminosos.
Se Locke estiver correto, quando você se lembra de si
mesmo quando criança. Você ainda é aquela criança.
Evidências provenientes da
Medicina Moderna
Essas críticas são sérias, mas a
teoria tem visto um ressurgimento moderno por causa de novas evidências
interessantes. Desde que o corpo funcione apropriadamente, é possível para um
ser humano sobreviver com apenas metade do cérebro, e quando cirurgiões
cortaram as conexões entre os dois hemisférios cerebrais (como parte de um
procedimento médico), o resultado foi um comportamento que sugere que existam
duas pessoas dentro do mesmo crânio. Podemos, portanto, imaginar (com bastante
realismo) uma metade do seu cérebro sendo transplantada para outro corpo. Nesse
caso, qual dos dois é você? Se quiser acompanhar principalmente onde sua
consciência permaneceu, terá um interesse real nas duas metades do seu cérebro,
o que sugere que você vai querer rastrear para onde sua consciência vai e as
duas vidas que a acompanharão.
As críticas originais, no
entanto, ainda se mantêm, e talvez não possam existir lembranças ou uma
consciência unificada se não houver um controlador central que não apenas
coordene o pensamento atual, mas também faça planos, relembre acontecimentos e
até os molde em uma narrativa.
|
ONDE FICA LOCALIZADO O EU? |
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|
ONDE? |
NO CORPO |
EM NOSSAS LEMBRANÇAS |
EM NOSSO CÉREBRO |
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Crítica |
Nossos corpos mudam ao longo do
tempo. |
As coisas podem ser esquecidas –
então, um criminoso com amnésia deve ser inocente. |
Quando um cérebro é cortado em
dois, o resultado parece ser duas pessoas vivendo em um único corpo. |
LIVRE-ARBÍTRIO
A vontade (ou arbítrio) de uma
pessoa é "livre"? Ou seja, será que ela tem pleno controle sobre seus
atos de um modo que outros fatores não têm, como o clima, por exemplo? Muitos
pensadores acreditam que a responsabilidade moral é impossível sem
livre-arbítrio. Nós normalmente não culpamos raposas por seu comportamento,
pois elas não podem escolher agir de outra forma, mas elogiamos e culpamos
pessoas maduras, pois elas podem ter controle total sobre o que fazem.
Primeiro, porém, devemos perguntar o que é, precisamente, o livre-arbítrio,
e se é possível que algo tenha esse poder.
A alegação mais
forte sobre o livre-arbítrio está associada a um ser supremo. Para ser
"supremo", tal ser deve dominar a natureza, e não estar sujeito às
leis desta (e, de fato, pode ser o criador dessas leis). Este precisa de um
poder de escolha que não esteja sujeito a influências externas. Se a
causalidade forma cadeias de causa e efeito, um ser plenamente livre deve gerar
causas que não sejam efeitos de qualquer acontecimento prévio, mas sim que se
iniciem a partir do nada. É difícil imaginar um ser puramente físico tendo tal
poder se estiver enredado nas causalidades normais da natureza. Algum aspecto
da mente deve se libertar da natureza física, seja como uma substância
separada, seja como uma propriedade única.
COMPATIBILISMO è seres físicos não podem ter
liberdade total,
mas ainda podem ter agência causal.
Uma afirmação mais fraca (chamada
de compatibilismo) é que, embora os seres físicos não possam ter liberdade
total, eles ainda têm um tipo distinto de causalidade natural (agência causal)
que permite ações mais controladas do que aquelas causadas em sistemas
climáticos. Tal agência causal surge porque o ser tem uma mente
consciente, ou porque ele é capaz de raciocinar, ou ainda porque ele tem
pensamentos de segunda ordem.
A favor do livre-arbítrio, às
vezes se diz que não existe nada mais óbvio. Quando enfrentamos uma escolha,
contemplamos as opções, levamos o tempo que for necessário, e então iniciamos
uma ação quando julgamos que ela seja a melhor. Estamos conscientes do processo
todo e podemos ver que temos completo controle.
Enfrentando
a tentação
Somos capazes
de escolher mesmo quando enfrentamos as mais fortes tentações:
§
Viciados
em drogas conseguem superar o vício
§
Prisioneiros
resistem à tortura
Não existe um ponto além do qual
nós devamos ceder à tentação. Nossos processos de raciocínio também parecem
oferecer uma boa sustentação ao conceito de livre-arbítrio. Toda a noção da
razão requer um distanciamento calmo que se eleve acima das pressões causais,
portanto a ausência do livre-arbítrio implica que não somos, de forma alguma,
seres racionais (o que parece ser falso). Sempre que encontramos uma razão para
agir, podemos encontrar uma razão alternativa para não agir, e nessas situações
apenas a vontade pode servir como critério de desempate, então ela deve se
erguer acima de todas as pressões. Se o pensamento de segunda ordem é
importante, até mesmo pensar a respeito da liberdade pode provar que somos
livres.
Espinoza argumentou que você nunca escolhe livremente – você só não
conhece as causas ocultas por trás da sua escolha.
Opositores dessa ideia acreditam
que tamanho otimismo é uma ilusão. Espinoza disse que, quando você acha que
está escolhendo livremente, isso só acontece porque você não conseguiu
descobrir as causas ocultas de seu comportamento. Hoje em dia, a mente
subconsciente nos lá a localização dos motivos secretos, e até das razões
secretas, e é impossível provar que poderes reais de escolha não estejam
escondidos de nós. Se desejarmos algo com aparente liberdade, não sabemos de
fato de onde veio essa decisão final; as decisões podem simplesmente nos
ocorrer, assim como todos os nossos outros pensamentos ocorrem na consciência,
sem serem convidados. Neurocientistas já demonstraram que o cérebro inicia o
ato final antes mesmo de alcançar a consciência.
DETERMINISMO è Todo acontecimento, inclusive as ações
humanas, tem
uma causa anterior que necessita de sua ocorrência
Se rejeitamos o livre-arbítrio,
então a alternativa parece ser o determinismo, que afirma que
todo acontecimento, inclusive as ações humanas, têm uma causa anterior que
necessita de sua ocorrência. A chuva tem de cair quando as condições estiverem
propícias, e os pensamentos e decisões humanas não são diferentes. Em
princípio, pensava-se que, se o momento presente fosse conhecido por completo,
todo o futuro poderia ser previsto - embora a mecânica quântica (que lida com
probabilidades, em vez de certezas) solapou essa confiança. Alguns pensadores
até abraçam o fatalismo, a crença de que nossas decisões são vãs,
porque o futuro já está decidido.
A neurociência moderna demonstrou
que as decisões começam no cérebro antes de chegar à consciência.
FATALISMOè O
futuro já está determinado.
A maioria dos filósofos ri dessa
afirmação, porque nossas escolhas fazem parte do que foi determinado, então
podemos muito bem seguir escolhendo.
Fonte:
GIBSON, Peter. Filosofia para
quem não é filósofo. - São Paulo: Universo dos Livros, 2021. p.109 - 121
COMUNICAÇÃO
O principal uso da linguagem é a transmissão de pensamentos. Os gregos antigos argumentavam sobre o valor da retórica (a habilidade de falar em público) porque isso tinha um papel importante na sociedade. Será que o objetivo principal de um discurso é fazer com que as pessoas concordem com você ou será que é falar a verdade? Sócrates defendeu a segunda perspectiva, mas nos tribunais e eleições modernos sabemos que a meta ainda é persuadir a audiência, em vez de falar a coisa certa. Os “pragmáticos” modernos se concentram na linguagem na prática e em como ter um contexto e ouvintes pode transformar os significados, as referências e até mesmo a verdade. p.154
EUDAIMONIA: desabrochar, uma vida realizada e bem sucedida.
VIRTUDES: são motivações para o comportamento apropriado.
TRÊS NÍVEIS DE COMPORTAMENTO:
- BRUTALIDADE - ocorre quando os seres humanos se comportam como animais e ignorantes.
- VÍCIO - quando sabemos distinguir bem e mal, mas fazemos o mal mesmo assim.
- AKRASIA - (falta de controle), fraqueza da vontade, é desejar fazer o que está correto, mas sucumbir à tentação. p.177
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