FILOSOFIA PARA QUEM NÃO É FILÓSOFO - PETER GIBSON - anotações de leitura

 GIBSON, Peter. Filosofia para quem não é filósofo. - São Paulo: Universo dos Livros, 2021.


"Nossas vidas dependem do que sabemos". p.71


"Se você acredita em algo, mas está enganado, então não sabe". p.71


"A verdade é o mínimo exigido para o conhecimento". p.71


A NATUREZA DA MENTE

Para os filósofos,  a mente é interessante por causa de seu papel essencial no conhecimento e na compreensão, seu papel ativo nas escolhas e na moralidade, e a relação entre as mentes humanas e a linguagem que elas empregam. Precisamos de uma descrição das funções da mente e suas capacidades, e uma compreensão da relação entre a mente e o cérebro, de um modo que se encaixe com as teorias mais amplas sobre o mundo

O que é uma mente?

 É  É uma entidade distinta ou um processo?
É o mesmo que a consciência, ou é muito mais extensa?
E totalmente separada do corpo, apesar de envolvida nele?
Ela se estende para o mundo, na informação que guardamos nos celulares, por exemplo?
Ela é apenas uma coleção de minúsculas atividades físicas?
Ela controla o corpo ou simplesmente reage a ele?

§   Somos especialistas em nossas próprias mentes, ou estamos envolvidos demais para enxergar o que está realmente acontecendo?

Algumas das grandes questões sobre o status do ser humano se escondem por trás desses enigmas. Se não formos diferentes, em princípio, dos outros mamíferos, então nossa descrição da mente humana não será muito diferente da descrição que fazemos da mente de um rato de laboratório. Entretanto, se tivermos uma visão mais elevada de nós mesmos, como acreditar que possuímos almas imortais ou que temos muito mais liberdade de escolha do que os ratos, ou como raciocinantes que podem compreender a verdade, a lógica, a matemática e os segredos da natureza, então nosso relato da mente humana deve tornar essas coisas possíveis.

Podemos tentar perguntar para que serve uma mente. Mentes precisam de cérebros, que só são encontrados em organismos que navegam em seus ambientes, então esse é um bom ponto de partida. Se uma criatura móvel e maior não consegue navegar, não durará muito em um mundo perigoso. É necessário ser multitarefas, em alta velocidade.

Todas essas atividades têm uma curiosa unidade, e a mente de alguma forma produz esse todo integrado. Animais visivelmente têm mentes em graus variados, mas nós não temos certeza do quanto eles estão cientes ou atenciosos. O único modo pelo qual podemos compreender a mente dos animais é procurando as melhores explicações para o comportamento deles, e as complexidades da vida animal vista nas filmagens da vida selvagem parecem impossíveis sem planejamento, comparações e mapas mentais do local. A consciência pode não ser essencial para conectar atividades como fazer ninhos, perseguir e montar armadilhas argutas, mas provavelmente ajuda muito.

Pensamentos e experiências

Se isso resume o papel básico de uma mente, do que as mentes precisam para realizar essa tarefa? Os filósofos têm se focado em dois aspectos. Precisamos vivenciar o mundo de forma a reagir a ele. Você retira rapidamente seu pé se pisa em algo afiado. O sentimento de dor cumpre o seu papel, sem nenhuma necessidade de raciocínio ou crenças. A palavra qualia (qualidades) é utilizada para essas experiências sensoriais imediatas, e refere-se à qualidade dolorosa de uma dor (ou à tonalidade de uma cor, como a vermelhidão do vermelho) - que precede qualquer pensamento a respeito do que fazer. Por outro lado, sua mente pode ter muitas crenças gerais que não envolvem nenhuma experiência em particular. Elas são estados mentais que versam "sobre" alguma coisa, e a palavra intencionalidade é usada para essa capacidade de pensar sobre as coisas. Crenças dizem respeito às coisas, no sentido de que o sol não pode se referir ou ser sobre a lua.

As mentes têm experiências cruas (qualia) e pensamentos com conteúdo (intencionalidade), e as duas atividades implicam que a mente representa o mundo exterior.


Nós humanos, também temos o fenômeno do pensamento de segundo nível – pensamentos a respeito de pensamentos, como “eu quero mesmo esse pão?” ou “eu peguei a saída errada?”

Nossa perspectiva sobre as mentes das outras pessoas é diferente e nós até podemos nos perguntar se as outras pessoas têm mentes. Normalmente, tomamos isso como uma certeza, mas qual base temos para estarmos tão certos? Talvez você seja o único consciente, e o restante de nós sejamos não conscientes (conhecidos entre os filósofos como “zumbis”). Você pode responder que seu comportamento é explicado pela sua mente e outras pessoas têm comportamentos semelhantes, então a explicação para eles deve ser a mesma. Também parece importante que elas provavelmente têm um cérebro como o seu.

 

É possível acreditar que você é o único consciente e todas as outras pessoas sejam não conscientes, meros zumbis.

Nós certamente não deveríamos presumir que temos todos uma experiência idêntica com um mesmo objeto.

 

Fonte:

GIBSON, Peter. Filosofia para quem não é filósofo. - São Paulo: Universo dos Livros, 2021. p.93 - 96


DESCARTES E A MENTE

Quando Descartes considerou a mente, ele identificou vários elementos que não podiam ser físicos:

  • A mente é totalmente unificada, enquanto o cérebro pode ser fatiado.
  • Nós podemos duvidar se temos corpos (já que podemos estar sonhando com eles), mas não temos como duvidar de que temos mentes, já que precisamos das mentes para o próprio processo de duvidar.
A mente (ao contrário do cérebro) parece ser intangível, não dispondo de volume, formato ou peso mensuráveis. Portanto, parece que a mente não é física. p.100 - 101




"[...] avanços dramáticos na Biologia e na Neurociência (como assistir ao cérebro devorar glucose quando está se esforçando bastante) tornaram o relato físico da mente muito mais plausível". p.101


DESCARTES - RACIONALISMO MODERNO: o conhecimento resulta de julgamento, não de experiências. p.106

HUMANOS E PESSOAS

Um ser humano começa a existir antes de nascer e continua sendo um ser humano mesmo após a morte. O conceito de pessoa surgiu porque a lei precisava dessa definição para se referir à fase de um ser humano em que ele pode ser legalmente responsável por seus atos. Para ser culpado de um crime ou ser obrigado a cumprir um contrato, um sujeito deve permanecer a mesma pessoa ao longo do tempo. O que importa são as características mentais, como estar consciente e sensato, em lugar de ter um corpo humano. Para ser uma pessoa, segundo a definição legal, não é sequer obrigatório ser um ser humano - podem ser consideradas pessoas uma corporação ou até mesmo uma cidade. Surgem, então, três questões essenciais:

§  O que conta como uma "pessoa"?

§  Quando alguém continua sendo "a mesma" pessoa?

§  Qual é o status de um humano que não é uma pessoa?

 

Quais características são necessárias para a existência de responsabilidade pessoal?

Se uma pessoa não apresentar nenhuma desculpa para determinado ato, ela deve ter estado em pleno controle. John Locke sugeriu que uma pessoa precisa estar consciente, racional e ser 

A pessoa, por John Locke:

§  Autoconsciente

§  Capaz de fazer escolhas  

§  Consciente

§  Contínua

§  Inteligente

§  Racional

autoconsciente e contínua - e desde que seja capaz de fazer escolhas, essa visão continua sendo aceita geralmente.

Como a pessoa permanece a mesma é um pouco mais complicado. Pensamos em um ser humano recém-nascido e suas possíveis variantes senis como sendo o mesmo ser humano (com o mesmo DNA). Mas permanecer a mesma pessoa (no sentido adotado por Locke) é mais difícil, porque os estados mentais mudam bastante, e uma pessoa na infância ou na extrema velhice não tem quase nada em comum com a mesma pessoa em seu auge. A solução mais fácil seria se todos tivessem um Eu que se formasse na infância e permanecesse exatamente o mesmo, desde que o cérebro não fosse danificado. Então, poderíamos dizer que, enquanto nossos pensamentos, humores e experiências mudam, o nosso Eu permanece fixo, como sujeito dessas atividades. A maioria das discussões a respeito de pessoas, portanto, concentra-se no Eu ou Ego.

O EU

Podemos perguntar se temos um Eu em dado momento, e deixar para depois o questionamento se o seu Eu persiste ao longo do tempo. Os primeiros budistas negavam inteiramente a existência do Eu, mas existem bons motivos a favor dessa existência. Nossos pensamentos e experiências não vagam aleatoriamente - eles pertencem a um sujeito. Esse sujeito se lembra do passado e planeja para o futuro, compara e reage ao que lhe acontece. Se ocorre um encadeamento de raciocínio, como uma demonstração matemática, o pensador precisa continuar essa ponderação durante o processo para manter a coesão da coisa toda. A qualquer momento, você não é uma massa de fragmentos em movimento, porque todos os seus acontecimentos podem ser focados em um único objetivo (como correr para pegar o trem). Alguns acontecimentos mentais são transitórios e triviais, mas outros têm grande importância para você, tais como suas lembranças, seus relacionamentos e suas principais crenças.

Será que uma planta ou uma joaninha tem um Eu? Um organismo unificado tem interesses unificados, mas nós provavelmente não acreditamos que uma planta tenha um Eu por ela não ter consciência. Assim, seria a consciência elemento crucial para a existência de um Eu? A parte que unifica demonstrações matemáticas e se concentra no trem parece precisar de consciência, mas sua mente inconsciente também faz parte de você, então o Eu pode não ser muito preciso, e ter um Eu pode não ser esse tudo ou nada. Mesmo que uma joaninha seja, até certo ponto, consciente, ela parece não cumprir os outros critérios para a individualidade, o Eu próprio. É provável que ela tenha linhas de raciocínio bem curtas, poucos planos e crenças mínimas (embora nunca se saiba com certeza). Quanto mais complexa a vida mental, mais parece ser necessária a existência de um ponto focal duradouro. A linguagem, por exemplo, precisa de um único falante para uni ficar um discurso longo.

Immanuel Kant admite que não conseguimos detectar um Eu interior, mas que existe uma óbvia necessidade de algo assim, algo que podemos reconhecer a priori. Não sabemos isso por observação, mas inferimos esse fato como uma precondição para a experiência e o raciocínio. Ele é uma presença indetectável, o que é essencial se quisermos compreender a vida mental.

Entretanto, talvez esses argumentos se foquem demais nos esta- dos mentais e ignorem o papel do corpo. Internamente, você pode pensar que tem um Eu, mas outras pessoas o identificam pelo seu rosto e seu aspecto físico. A mente é, hoje em dia, vista como algo muito integrado ao corpo, e o pensamento tem uma forte dimensão corporal. Portanto, talvez o seu senso de individualidade seja muito mais como a sua imagem de seu próprio corpo - o que significa que perder uma perna realmente é perder uma parte do seu Eu, e se você muda de gênero, torna-se uma pessoa diferente.

Autoconsciência

A maioria dos argumentos a favor de um Eu é baseada na introspecção - no olhar voltado para nossas próprias mentes. Isso pode nos ajudar a compreender a nós mesmos e ainda dar um fundamento confiável para o conhecimento. Racionalistas dizem que existem verdades autoevidentes disponíveis na introspecção (depois de pensar um pouco), a partir das quais podemos inferir muitas outras verdades, quando elas são combinadas com a experiência.

Existe, contudo, um problema óbvio em tentar enxergar seu próprio Eu por meio da introspecção: algo como um gato tentando pegar o próprio rabo, porque não há espelhos para um indivíduo enxergar a si mesmo.

A introspecção tem todo tipo de limitações, tais como distinguir suas próprias emoções ou saber se você entendeu algo. Quando se sente raiva ou urgência ao fazer algo, a introspecção se torna impossível, portanto, esses estados não podem ser analisados de forma direta. A pesquisa psicológica moderna também nos mostrou que os relatos das pessoas sobre suas motivações e princípios morais são bastante questionáveis, pois o que elas fazem de fato com frequência contradiz o que elas dizem que buscam fazer. Relatos de acontecimentos testemunhados recentemente também podem ser incrivelmente imprecisos. Assim, a introspecção tem óbvias limitações, portanto deveria ser tratada com muita cautela.

Todavia, ignorar a introspecção como fonte de conhecimento é drástico demais. Sua consciência de sua vida mental pode ser incerta, mas é uma análise melhor do que a de qualquer outra pessoa. Escaneamento cerebral e experimentos psicológicos não chegariam a lugar algum sem os relatos introspectivos dos sujeitos a respeito do raciocínio envolvido. A convicção de que suas experiências de infância, especialmente as mais vívidas, aconteceram com você é forte demais para ser descartada por relatos ocasionais de falibilidade mental. Isso pode não significar que conhecemos o Eu, mas oferece muita compreensão sobre nossa própria natureza e continuidade.

 

 

 

 

DUVIDANDO DO EU

BUDISTAS

IMMANUEL KANT

DAVID HUME

FRIEDRICH NIETZSCHE

NEUROCIÊNCIA MODERNA

Não existe um Eu.

Não podemos detectá-lo, apenas inferir a existência do Eu devido à nossa experiência e nosso raciocínio.

Não existe um Eu, apenas um ‘pacote de acontecimentos mentais.

Somos guiados por desejos inconscientes e não existe nenhuma entidade fixada que constitua um “eu” ao longo da vida.

Não existe nenhuma estrutura cerebral para desempenhar o papel do “Eu”, mas pensamentos de segunda ordem podem oferecer uma base a ele.

 

Um desafio mais drástico à individualidade veio do empírico David Hume, que declarou que não conseguia encontrar nenhum sinal de um Eu quando examinava a própria mente. Ele encontrava apenas um emaranhado de acontecimentos mentais sem estrutura, ao qual se referia como um "pacote". Podemos imaginar um "Eu", mas não existe nenhuma evidência para sua existência. A neurociência oferece alguma sustentação para essa perspectiva, já que nenhuma estrutura cerebral conhecida desempenha o papel necessário de Eu - apesar do fato de que o pensamento seria claramente impossível sem alguma coordenação. A presença de pensamentos de "segunda ordem" (pensamentos a respeito de pensamentos) pode oferecer certa base para um Eu - como a parte de você que decide em que se focar (concentrando-se neste livro, por exemplo), ou que julga o seu próprio comportamento.

 

Céticos dizem que devemos admitir que a ideia de uma entidade fixa e imutável que constituiria você por toda a sua vida é simplesmente falsa. Nietzsche foi ainda mais pessimista do que Hume sobre a possibilidade de conhecermos a nós mesmos por meio da introspecção. 

 

David Hume só conseguia descobrir dentro de sua mente um pacote de acontecimentos mentais, em vez de um Eu coerente.

 

Hume pelo menos teve uma familiaridade rápida com o conteúdo de seu "pacote" de experiências, mas mesmo estas são enganosas se dependerem totalmente de como as interpretamos, e podem até ser inundadas por "estímulos" mentais inconscientes que não compreendemos. Nietzsche sentiu-se sendo varrido pelos poderes enterrados no fundo do interior da mente. 

0 Eu em transformação

Mais influente tem sido a afirmação de Hegel de que a introspecção não revelará o Eu, mas que nós podemos compreender nossa natureza essencial vendo-a em relação a outras mentes. Esse conceito foi desenvolvido por sociólogos em um rico relato do Eu como um "construto social". Se existe um Eu fixado, de onde ele vem? Ele parece ser fixado por nossa ascendência e DNA ("natureza") e talvez por treinamento durante a infância ("criação"). Na vida adulta, experimentamos influências sobre nossas emoções, opiniões e escolhas, mas a perspectiva tradicional afirma que permanecemos os mesmos enquanto isso ocorre. No entanto, se o Eu é um construto social, tudo isso está errado.

 

Hegel afirmou que poderíamos compreender o Eu através de sua relação com outras mentes.

 

MOLDANDO O EU

GEORG FRIEDRICH HEGEL

KARL MARX

EXISTENCIALISMO

FILOSOFIA PÓS-MODERNA

Só podemos conhecer o Eu por meio de nossas experiências com os outros. E Eu é um construto social.

Nossas mentes são moldadas pela situação política e econômica.

Podemos refazer nosso Eu de acordo com nossos próprios ideais.

O Eu é o principal personagem na narrativa em andamento de nossas vidas.

 

 

Uma versão inicial dessa perspectiva social veio de Karl Marx, para o qual a natureza essencial de nossa consciência é moldada pela situação econômica e política em que nos encontramos. Nossas mentes são moldadas por quem controla a sociedade, e a maioria de nós se torna o que for mais conveniente à nossa posição social.

Uma abordagem mais individualista é a do Existencialismo, que afirma que o Eu pode de fato ser moldado de maneiras ilimitadas, mas nos insta a assumir o controle do processo, em vez de sermos passivamente influenciados pela sociedade. Como temos pensamentos de segunda ordem, podemos fazer e refazer o nosso Eu de acordo com nossos próprios ideais. Uma abordagem moderna ao Eu o conecta ao nosso amor profundo pela contação de histórias e trata o Eu como uma narrativa contínua, uma imagem de nós mesmos que se desenvolve (quase sem pensar a respeito) conforme progredimos pela vida. Nós temos um "eu narrativo", que é o personagem principal em um drama que se desdobra. Na visão narrativa, nossas vidas têm unidade e propósito, e outras pessoas desenvolvem suas próprias histórias ao lado das nossas. Somos fixos como o personagem principal, mas transformados pelos acontecimentos.

 

CONTINUIDADE DAS PESSOAS

Advogados precisam que continuemos as mesmas pessoas, e todos nós pensamos em nós mesmos como essencialmente iguais desde a infância até a velhice, mas como pode ser, se o Eu está mudando constantemente e é fortemente moldado por influências sociais? Podemos nos agarrar a algo sobre o Eu, a despeito dessa variação? Uma solução óbvia é focarmos no corpo, que, pelo menos, segue uma trajetória ininterrupta pelo espaço e o tempo. Se você não é o mesmo que era quando bebê, em que momento a mudança ocorreu? Seu DNA permanece idêntico e suas fotografias são reconhecivelmente da mesma pessoa.

Seu DNA continua igual, mesmo quando sua situação social muda.

Nós damos muito valor à existência corporal das pessoas, até antes ou depois de elas terem as qualidades que fazem delas uma "pessoa". Entretanto, temos pouquíssimo em comum com nossos Eus bebês, e não esperaríamos que alguém de trinta anos cumprisse uma promessa que fez aos cinco anos. 

Lembranças

Locke sugeriu que o que importa não é que você acredite ser o mesmo que era aos cinco anos, mas que você se lembre de quando tinha cinco anos. Nossos dias e anos são unificados por longas cadeias de lembranças. Podemos vê-las como parte de uma narrativa, mas também guardamos com carinho lembranças triviais, que são valorizadas por elas mesmas. Locke sugeriu, ousadamente, que você permanece a mesma pessoa apenas na medida em que consegue se lembrar dos acontecimentos, e caso tenha se esquecido totalmente deles, eles deixam de fazer parte de você. Ele também acrescentou que o seu corpo é parte da sua pessoa se você tiver consciência dele, de modo que o seu mindinho é uma parte de você, mas seu cabelo talvez não seja. Assim, você é a sua consciência, e você continua idêntico desde que faça parte dessa consciência estendida ao longo do tempo.

 

Thomas Reid logo encontrou alguns problemas nessa teoria. Segundo Locke, se você tem lembranças da infância quando está com trinta anos, então você é a mesma pessoa que aquela criança, e se uma pessoa idosa tem lembranças de quando tinha trinta, ela é a mesma pessoa que aquela de trinta. Mas e se aquela pessoa idosa conseguir se lembrar de quando tinha trinta, mas não de quando era criança? Então, esse indivíduo simultaneamente não é o mesmo que a criança (porque se esqueceu), e é o mesmo que a criança (porque é idêntico ao indivíduo de trinta anos, que é idêntico à criança). Contradição. Também parece que você deixa de ser culpado por seus crimes se você não se lembra mais de tê-los cometido - o que faz da amnésia uma grande vantagem para os criminosos. 

 

Se Locke estiver correto, quando você se lembra de si mesmo quando criança. Você ainda é aquela criança.

 

Evidências provenientes da Medicina Moderna

Essas críticas são sérias, mas a teoria tem visto um ressurgimento moderno por causa de novas evidências interessantes. Desde que o corpo funcione apropriadamente, é possível para um ser humano sobreviver com apenas metade do cérebro, e quando cirurgiões cortaram as conexões entre os dois hemisférios cerebrais (como parte de um procedimento médico), o resultado foi um comportamento que sugere que existam duas pessoas dentro do mesmo crânio. Podemos, portanto, imaginar (com bastante realismo) uma metade do seu cérebro sendo transplantada para outro corpo. Nesse caso, qual dos dois é você? Se quiser acompanhar principalmente onde sua consciência permaneceu, terá um interesse real nas duas metades do seu cérebro, o que sugere que você vai querer rastrear para onde sua consciência vai e as duas vidas que a acompanharão.

As críticas originais, no entanto, ainda se mantêm, e talvez não possam existir lembranças ou uma consciência unificada se não houver um controlador central que não apenas coordene o pensamento atual, mas também faça planos, relembre acontecimentos e até os molde em uma narrativa. 

 

 

 

 

ONDE FICA LOCALIZADO O EU?

ONDE?

NO CORPO

EM NOSSAS LEMBRANÇAS

EM NOSSO CÉREBRO

Crítica

Nossos corpos mudam ao longo do tempo.

As coisas podem ser esquecidas – então, um criminoso com amnésia deve ser inocente.

Quando um cérebro é cortado em dois, o resultado parece ser duas pessoas vivendo em um único corpo.

 

 

LIVRE-ARBÍTRIO

A vontade (ou arbítrio) de uma pessoa é "livre"? Ou seja, será que ela tem pleno controle sobre seus atos de um modo que outros fatores não têm, como o clima, por exemplo? Muitos pensadores acreditam que a responsabilidade moral é impossível sem livre-arbítrio. Nós normalmente não culpamos raposas por seu comportamento, pois elas não podem escolher agir de outra forma, mas elogiamos e culpamos pessoas maduras, pois elas podem ter controle total sobre o que fazem. Primeiro, porém, devemos perguntar o que é, precisamente,                                     o livre-arbítrio, e se é possível que algo tenha esse poder.

A alegação mais forte sobre o livre-arbítrio está associada a um ser supremo. Para ser "supremo", tal ser deve dominar a natureza, e não estar sujeito às leis desta (e, de fato, pode ser o criador dessas leis). Este precisa de um poder de escolha que não esteja sujeito a influências externas. Se a causalidade forma cadeias de causa e efeito, um ser plenamente livre deve gerar causas que não sejam efeitos de qualquer acontecimento prévio, mas sim que se iniciem a partir do nada. É difícil imaginar um ser puramente físico tendo tal poder se estiver enredado nas causalidades normais da natureza. Algum aspecto da mente deve se libertar da natureza física, seja como uma substância separada, seja como uma propriedade única. 

COMPATIBILISMO è seres físicos não podem ter liberdade total,

mas ainda podem ter agência causal.

Uma afirmação mais fraca (chamada de compatibilismo) é que, embora os seres físicos não possam ter liberdade total, eles ainda têm um tipo distinto de causalidade natural (agência causal) que permite ações mais controladas do que aquelas causadas em sistemas climáticos. Tal agência causal surge porque o ser tem uma mente consciente, ou porque ele é capaz de raciocinar, ou ainda porque ele tem pensamentos de segunda ordem.

A favor do livre-arbítrio, às vezes se diz que não existe nada mais óbvio. Quando enfrentamos uma escolha, contemplamos as opções, levamos o tempo que for necessário, e então iniciamos uma ação quando julgamos que ela seja a melhor. Estamos conscientes do processo todo e podemos ver que temos completo controle. 

 

Enfrentando a tentação

Somos capazes de escolher mesmo quando enfrentamos as mais fortes tentações:

§  Viciados em drogas conseguem superar o vício

§  Prisioneiros resistem à tortura

 

Não existe um ponto além do qual nós devamos ceder à tentação. Nossos processos de raciocínio também parecem oferecer uma boa sustentação ao conceito de livre-arbítrio. Toda a noção da razão requer um distanciamento calmo que se eleve acima das pressões causais, portanto a ausência do livre-arbítrio implica que não somos, de forma alguma, seres racionais (o que parece ser falso). Sempre que encontramos uma razão para agir, podemos encontrar uma razão alternativa para não agir, e nessas situações apenas a vontade pode servir como critério de desempate, então ela deve se erguer acima de todas as pressões. Se o pensamento de segunda ordem é importante, até mesmo pensar a respeito da liberdade pode provar que somos livres.

 

Espinoza argumentou que você nunca escolhe livremente – você só não conhece as causas ocultas por trás da sua escolha.

 

Opositores dessa ideia acreditam que tamanho otimismo é uma ilusão. Espinoza disse que, quando você acha que está escolhendo livremente, isso só acontece porque você não conseguiu descobrir as causas ocultas de seu comportamento. Hoje em dia, a mente subconsciente nos lá a localização dos motivos secretos, e até das razões secretas, e é impossível provar que poderes reais de escolha não estejam escondidos de nós. Se desejarmos algo com aparente liberdade, não sabemos de fato de onde veio essa decisão final; as decisões podem simplesmente nos ocorrer, assim como todos os nossos outros pensamentos ocorrem na consciência, sem serem convidados. Neurocientistas já demonstraram que o cérebro inicia o ato final antes mesmo de alcançar a consciência.

 

DETERMINISMO è Todo acontecimento, inclusive as ações humanas,                                          tem uma causa anterior que necessita de sua ocorrência

 

Se rejeitamos o livre-arbítrio, então a alternativa parece ser o determinismo, que afirma que todo acontecimento, inclusive as ações humanas, têm uma causa anterior que necessita de sua ocorrência. A chuva tem de cair quando as condições estiverem propícias, e os pensamentos e decisões humanas não são diferentes. Em princípio, pensava-se que, se o momento presente fosse conhecido por completo, todo o futuro poderia ser previsto - embora a mecânica quântica (que lida com probabilidades, em vez de certezas) solapou essa confiança. Alguns pensadores até abraçam o fatalismo, a crença de que nossas decisões são vãs, porque o futuro já está decidido. 

A neurociência moderna demonstrou que as decisões começam no cérebro antes de chegar à consciência.

FATALISMOè  O futuro já está determinado.

A maioria dos filósofos ri dessa afirmação, porque nossas escolhas fazem parte do que foi determinado, então podemos muito bem seguir escolhendo.

 

Fonte:

GIBSON, Peter. Filosofia para quem não é filósofo. - São Paulo: Universo dos Livros, 2021. p.109 - 121

 

 

 


"Não há espelhos para o indivíduo enxergar a si mesmo". p.111-112

"Sua consciência de sua vida mental pode ser incerta, mas é uma análise melhor do que a de qualquer pessoa". p.112

"Podemos imaginar um EU, mas não existe nenhuma evidência para sua existência". p.113

"Você é a sua consciência, e você continua idêntico desde que faça parte dessa consciência estendida ao longo do tempo". JOHN LOCKE (1632-1704) p.116

Sempre que encontramos uma razão para agir, podemos encontrar uma razão alternativa para não agir, e nessas situações apenas a vontade pode servir como critério de desempate, então ela deve se erguer acima de todas as pressões. p. 120.

Mecânica quântica, lida com probabilidades, em vez de certezas. p.121

DETERMINISMO: todo acontecimento, inclusive as ações humanas, tem uma causa anterior que necessita de sua ocorrência. p.121

FATALISMO: o futuro já está determinado. (A maioria dos filósofos ri dessa afirmação, porque nossas escolhas fazem parte do que foi determinado, então podemos muito bem seguir escolhendo).  p.121

p.179 - ÉTICA - Teoria da Virtude: Pessoas que iniciam guerras podem ser bons cidadãos de um país, mas péssimos cidadãos do mundo.

p.182 - Não há modo de resolver uma disputa entre duas pessoas com intuições discordantes.

p.186 - Mesmo que um ato generoso específico nunca seja correspondido, sua reputação por gentileza sempre trará uma recompensa.

p.186 - PARASITA: [...] apenas finge cooperar com outras pessoas enquanto explora a boa vontade delas.




COMUNICAÇÃO

O principal uso da linguagem é a transmissão de pensamentos. Os gregos antigos argumentavam sobre o valor da retórica (a habilidade de falar em público) porque isso tinha um papel importante na sociedade. Será que o objetivo principal de um discurso é fazer com que as pessoas concordem com você ou será que é falar a verdade? Sócrates defendeu a segunda perspectiva, mas nos tribunais e eleições modernos sabemos que a meta ainda é persuadir a audiência, em vez de falar a coisa certa. Os “pragmáticos” modernos se concentram na linguagem na prática e em como ter um contexto e ouvintes pode transformar os significados, as referências e até mesmo a verdade. p.154


EUDAIMONIA: desabrochar, uma vida realizada e bem sucedida.

VIRTUDES: são motivações para o comportamento apropriado.

TRÊS NÍVEIS DE COMPORTAMENTO:

  1. BRUTALIDADE - ocorre quando os seres humanos se comportam como animais e ignorantes.
  2. VÍCIO - quando sabemos distinguir bem e mal, mas fazemos o mal mesmo assim.
  3. AKRASIA - (falta de controle), fraqueza da vontade, é desejar fazer o que está correto, mas sucumbir à tentação. p.177

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